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De Damasco a Nabatieh – A história da tranferência de mísseis da Síria ao Hezbollah

gustavochacra

23 de abril de 2010 | 09h00

Ao longo de toda a semana, a suposta transferência de mísseis Scuds da Síria para o Hezbollah tem dominado os debates de Beirute a Tel Aviv, de Ramallah a Damasco. A notícia surgiu primeiro em um jornal kuwaitiano. Depois, repercutiu em declarações do presidente de Israel, Shimon Peres. O regime de Bashar al Assad e a organização libanesa negaram. Os Estados Unidos suspeitam de que seja verdade. Enviaram o senador John Kerry para a Síria e convocaram um diplomata sírio em Washington para dar explicações. Na Itália, o premiê libanês, Saad Hariri, acusou Israel de mentir sobre o episódio.

Independentemente de ser verdade ou não, a acusação da transferência dos mísseis reascendeu a tensão na fronteira do Líbano com Israel, em um momento em que os israelenses também observam o recrudescimento nos disparos de foguetes vindos de Gaza e, agora, também do Sinai.

ISRAEL – Israel teme o Hezbollah. Afinal, a organização libanesa é a mais poderosa milícia armada do mundo e inimiga declarada dos israelenses. Os Scuds fortalecem ainda mais o grupo xiita. Mesmo sem estas armas, o Hezbollah possui capacidade para alvejar Tel Aviv e Haifa com seus atuais mísseis de localidades tão distantes como o norte do vale do Beqaa. Com elas, cresce a ameaça psicológica. Os Scuds foram usados por Saddam Hussein contra os israelenses na Guerra do Golfo – um conflito que, sob qualquer ponto de vista, Israel foi apenas uma vítima. Agora, em Tel Aviv, certamente os habitantes temem que em um conflito com o Irã o Hezbollah use estas armas.

LÍBANO – O que esquecem é da dinâmica da política interna libanesa. O Hezbollah é  xiita e também libanês. E, para ter legitimidade interna, depende de acordos com os cristãos ligados a Michel Aoun e algumas facções sunitas e druzas. Sabem que uma nova guerra contra Israel, em nome do Irã, arrasaria a imagem da organização em Beirute, especialmente na ala cristã, onde conta com relativa simpatia. Além disso, não podemos esquecer que os iranianos foram covardes nas guerras do Líbano e Gaza. Em nenhum momento o regime de Teerã teve coragem de bater de frente com Israel para defender seus aliados Hamas e Hezbollah. Por que os palestinos e os libaneses ajudariam o Exército do Irã caso Israel decida bombardear instalações iranianas para frear o programa nuclear?

SÍRIA – Assad, na Síria, sabe que os EUA precisam dele. O subsecretário de Estado dos EUA, Jeffrey Feltman, que nunca simpatizou com Damasco nos seus tempos de embaixador americano em Beirute, defendeu a manutenção da aproximação com os sírios em depoimento a deputados em Washington e o diálogo de Kerry com Assad será mantido em segredo. Sabendo disso, a Síria faz seus tradicionais jogos, provocando um aqui, agradando outro ali, enquanto restaura sua influência no Líbano. E esta, hoje, independe do Hezbollah. Os sírios se aliaram novamente ao líder druzo Walid Jumblatt e mantém amizade pessoal com o presidente Michel Suleiman. Os dois são poderosíssimos no Líbano. Para que armar ainda mais o Hezbollah? Para ter uma força ainda mais poderosa no Líbano que pode futuramente se voltar contra a Síria? Não faz sentido. Mas, na região, tudo é como no filme Poderoso Chefão. Nunca se sabe.

Falta ainda discutir afirmação de Hariri, negando a transferência. E o premiê está longe de ser um amigo da Síria, a quem acusa de ter matado seu pai em atentado em 2005. Além disso, o Hezbollah invadiu a sua casa (de Saad) e queimou seu canal de TV. Por que ele iria proteger os sírios e o grupo xiita? Segundo Haaretz, porque o primeiro-ministro, que é um dos homens ricos do mundo, teme que uma nova guerra afete seus investimentos bilionários em Beirute. Pode ser verdade. Mas, no Líbano, todos, incluindo Hariri, voltaram a levantar a história de que Israel quer mais uma vez estragar o verão libanês, com suas praias paradisíacas, sua vida noturna incomparável naquela parte do mundo e a chegada de um número recorde de turistas. Aliás, como também se espera em Tel Aviv, outra cidade fantástica. Espero apenas que libaneses e israelenses não sejam atraídos para um conflito de Teerã, estragando os dias de sol no Mediterrâneo.

Obs. Por favor, pediria que os leitores com blogs sobre política externa ou baseados no exterior enviassem  os seus links para mim através dos comentários. Coloquei aqui no final o pedido. Assim, terei certeza de que leem o blog mesmo

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Perfil (a ferramenta ao lado não funciona) – O jornalista Gustavo Chacra, mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia, é correspondente de “O Estado de S. Paulo” em Nova York. Já fez reportagens do Líbano, Israel, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Egito, Turquia, Omã, Emirados Árabes, Yemen e Chipre quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Participou da cobertura da Guerra de Gaza, Crise em Honduras, Crise Econômica nos EUA e na Argentina, Guerra no Líbano, Terremoto no Haiti e crescimento da Al Qaeda no Yemen. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Este blog foi vencedor do Prêmio Estado de Jornalismo em 2009, empatado com o blogueiro Ariel Palacios

Leia os blogs dos correspondentes internacionais do Estadão – Ariel Palacios (Buenos Aires), Patricia Campos Mello (Washington), Jamil Chade (Genebra), Claudia Trevisan (Pequim) e Adriana Carranca (pelo mundo)

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