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De Damasco a Washington – Pela lógica, a Síria deveria ser aliada dos EUA e inimiga do Irã

gustavochacra

11 de outubro de 2010 | 09h36

A Síria concorda em quase tudo com os EUA no Oriente Médio, e em quase nada com o Irã. No Iraque, os sírios defendem um governo com presença dos sunitas, sem o comando total dos xiitas. Esta é a exatamente a mesma posição de Washington. O Irã prefere um governo unicamente xiita e integrado pelo partido do clérigo radical Moktada al Sadr.

Agora, no Líbano, os americanos e os sírios não vêem com bons olhos o crescente envolvimento do Irã. Você devem achar que eu fiquei louco, pois a Síria seria amiga do Hezbollah, aliados dos iranianos. Mas, na verdade, a Síria pensa na Síria. E, para os sírios, o que interessa é Damasco forte no Líbano. No atual cenário libanês, a força do Hezbollah e, acima de tudo, do Irã, tem crescido demais, irritando Bashar al Assad.

Os sírios também são contra o radicalismo islâmico, assim como os EUA. Os dois lados são favoráveis a um Oriente Médio secular, com enfraquecimento de grupos religiosos. Já o Irã é um Estado supostamente islâmico – na minha opinião, trata-se de um regime que usa o islã para instalar uma ditadura.

Finalmente, sobra Israel. Acreditem, mesmo neste ponto, a Síria e os EUA estão do mesmo lado e o Irã, do outro. Os americanos e os sírios são a favor de um acordo de paz com Israel. Os EUA não adotam uma posição definida, mas a Síria exige a devolução das colinas do Golã. Já o regime de Teerã não aceita nenhuma forma de acordo com Israel.

Certamente alguns lembrarão do Hamas. Concordo, na questão palestina, americanos e sírios estão em lados opostos. Mas, havendo paz entre Israel e Síria, tenham certeza, o regime de Damasco, no dia seguinte, se tornará o principal articulador de um paz entre israelenses e palestinos, tentando inclusive convencer o Hamas a dialogar – se o outro lado, claro, também concordar.

Logo, fica a pergunta – Por que a Síria é aliada do Irã e não dos EUA? Na minha avaliação, porque a Síria está isolada e precisa de dinheiro. Este tem vindo do Irã. Mas, cada vez mais, as relações com a Turquia se intensificam. Se os EUA engajarem a Síria, certamente a relação com Teerã pode se deteriorar. Insisto, a Síria pensa na Síria.

Obs. Nesta semana, falarei bastante da visita de Ahmadinejad ao Líbano

Obs2. Não escreverei sobre o campo de Dachal ainda porque talvez eu precise esperar para publicar reportagem na edição impressa

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O jornalista Gustavo Chacra, mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia, é correspondente de “O Estado de S. Paulo” em Nova York. Já fez reportagens do Líbano, Israel, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Egito, Turquia, Omã, Emirados Árabes, Yemen e Chipre quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Participou da cobertura da Guerra de Gaza, Crise em Honduras, Crise Econômica nos EUA e na Argentina, Guerra no Líbano, Terremoto no Haiti e crescimento da Al Qaeda no Yemen. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Este blog foi vencedor do Prêmio Estado de Jornalismo em 2009, empatado com o blogueiro Ariel Palacios

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