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De Dubai ao Cairo – Americanos e Iranianos provocaram mais mortes de Árabes do que Israel

gustavochacra

29 de abril de 2010 | 08h24

Já escrevi aqui antes sobre a Guerra Fria no Oriente Médio e os conflitos que não envolvem diretamente Israel. Existe uma tendência a acharem que, nesta região do planeta, radicais islâmicos odeiam e querem destruir a civilização avançada israelense, que seria um bastião do Ocidente com árvores verdes  e empresas tecnológicas de ponta no meio de regimes demoníacos e decadentes em desertos ricos em petróleo.

Obviamente, esta visão é completamente equivocada. Primeiro, os países da região não são e tampouco sempre foram amigos. Os dois maiores conflitos no Oriente Médio, desde a Segunda Guerra, não envolveram os israelenses.  O mais mortífero foi a Guerra do Irã contra o Iraque, na década de 1980. Foram, segundo o Global Security, 675 mil mortos (algumas estimativas falam em mais de 1 milhão). Apesar do ódio que Ahmadinejad tem do Estado judaico, os israelenses, em 61 anos de existência, jamais mataram um iraniano, enquanto 300 mil foram mortos pelo regime iraquiano de Saddam Hussein – que fique claro, mesmo em 2010, o ditador iraquiano é mais odiado em Teerã do que todos os israelenses somados. O segundo colocado é a Guerra do Iraque atual. Os Estados Unidos mataram dezenas de vezes mais árabes do que Israel.

Ainda hoje, há conflitos envolvendo os países da região, ou mesmo embates domésticos. O Egito e o Hezbollah são rivais. O regime de Hosni Mubarak, ontem mesmo, determinou a prisão de 26 membros da organização libanesa no Cairo. Aliás, o governo egípcio apoiou Israel na Guerra de Gaza. No início dos bombardeios contra o Líbano em 2006, as monarquias saudita e jordaniana também se calaram. Riad e Teerã ainda disputam a supremacia na região. Os sírios, desde 1948, vêem com ressalvas os jordanianos.

Dizer que todos os países são radicais islâmicos tampouco é verdadeiro. Há três diferentes formatos de países no mundo árabe. Primeiro, há os conservadores islâmicos, como a Arábia Saudita e o Kuwait, que são, ironicamente, os principais aliados dos americanos, sem esquecer que 15 dos 19 terroristas do 11 de Setembro eram sauditas e nenhum iraquiano. O segundo grupo é formado por regimes seculares, como a Síria, o Egito e a Cisjordânia. No caso sírio, ninguém se interessa pela sua religião. O presidente Bashar al Assad, oficialmente alauíta, sequer jejua no Ramadã. Finalmente, existe o Líbano, que é sectário.

Israel é sim um dos países mais avançados em tecnologia do mundo. Talvez, esta seja hoje a característica mais marcante da economia israelense. Se escrevi outro dia que dormimos na questão da resistência pacífica palestina, estamos em um sono profundo ao ignorar a economia de Israel. Também trouxeram avanços impressionantes na agricultura. Isso não significa que o mundo árabe seja atrasado e desértico. O Líbano é bem mais verde do que Israel. Os palestinos sempre plantaram as suas oliveiras ao redor de Nablus, Jerusalém e outras partes do território. Visitei Gaza e vi as plantações de morango e flores – muitas destruídas na guerra.

Países do golfo investem pesado em universidades, importando o que há de melhor nos EUA e na Europa. A engenharia em lugares como Dubai e Doha supera a do Ocidente. Abu Dhabi possui o maior fundo de investimentos soberano do mundo. E Beirute ainda carrega o posto de cidade mais cosmopolita do Mediterrâneo oriental, apesar de todas as guerras e conflitos. O Oriente Médio é uma matriz, com países tendo defeitos e qualidades. Não muito diferente da América Latina, onde há o Chile e a Venezuela. Ou na África, com o Zimbábue e o Congo sendo o oposto da Namíbia e da Botsuana.

Comentários islamofóbicos, anti-semitas e anti-árabes ou que coloquem um povo ou uma religião como superiores não serão publicados. Tampouco ataques entre leitores ou contra o blogueiro. Pessoas que insistirem em ataques pessoais não terão mais seus comentários publicados. Não é permitido postar vídeo. Todos os posts devem ter relação com algum dos temas acima. O blog está aberto a discussões educadas e com pontos de vista diferentes

Perfil (a ferramenta ao lado não funciona) – O jornalista Gustavo Chacra, mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia, é correspondente de “O Estado de S. Paulo” em Nova York. Já fez reportagens do Líbano, Israel, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Egito, Turquia, Omã, Emirados Árabes, Yemen e Chipre quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Participou da cobertura da Guerra de Gaza, Crise em Honduras, Crise Econômica nos EUA e na Argentina, Guerra no Líbano, Terremoto no Haiti e crescimento da Al Qaeda no Yemen. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Este blog foi vencedor do Prêmio Estado de Jornalismo em 2009, empatado com o blogueiro Ariel Palacios

Leia os blogs dos correspondentes internacionais do Estadão –

Ariel Palacios (Buenos Aires) – http://blogs.estadao.com.br/ariel-palacios/ – O criador do ‘deme dos’ iria ao banco dos réus por sequestro de empresários

Patricia Campos Mello (Washington) – http://blogs.estadao.com.br/patricia-campos-mello/ – Goldman Sachs vendeu “monte de porcaria”, “lixo” e “negócio de m….”

Claudia Trevisan (Pequim) – http://blogs.estadao.com.br/claudia-trevisan/ – Expo 2010 leva o mundo a Xangai

e Adriana Carranca (pelo mundo) – http://blogs.estadao.com.br/adriana-carranca/ – Michael Moore ao vivo, hoje, no programa Larry King, da CNN





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