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De Gaza a Cisjordânia – Para onde vai a Palestina?

gustavochacra

12 de novembro de 2010 | 00h39

Atenção – Imperdível o post deste domingo. Publicarei entrevista exclusiva com uma conhecida personalidade internacional que fala de assuntos chave para o Oriente Médio. Haverá uma segunda parte na segunda-feira

A divisão entre os palestinos não é exatamente entre Fatah na Cisjordânia e Hamas na Faixa de Gaza. Na verdade, o premiê palestino, Salam Fayyad, pertence a um outro partido denominado Terceira Via. Economista com PhD pela Universidade do Texas e ex-funcionário do Banco Mundial, o primeiro-ministro não concorda com uma série de pontos da ideologia do partido do presidente Mahmoud Abbas, apesar de os dois serem aliados.

Além disso, Fayyad não vivenciou a OLP no exílio, com os combates na Jordânia, no Líbano e na Tunísia. Tampouco participou da Primeira e da Segunda Intifada, como o Hamas. Portanto hoje os palestinos possuem no poder executivo uma figura que de forma alguma pode ser relacionada com o terrorismo ou os anos de Yasser Arafat.

Abbas abriu mão de parte de seu poder para Fayyad e a Terceira Via. Muitos integrantes do Fatah também mudaram de lado, como Hanan Ashrawi. De uma certa forma, a modernização da Cisjordânia se deve em grande parte a este fluxo de poder do ultrapassado Fatah para a mais contemporânea Terceira Via. Apesar disso, como é possível ver em pesquisa abaixo, nem ele, nem seu partido, são populares. Aliás, tem apenas 1% de apoio no total.

Em Gaza, o domínio é do Hamas. E, pelo menos nas congeladas negociações de paz, ninguém aborda a questão da reconciliação palestina. Ou de um possível diálogo com a organização islâmica. Às vezes, dando voz, dá para colocar o grupo na parede. A pergunta para o Hamas é simples – Vocês aceitam ou não a existência de Israel nas fronteiras de 1967?

Se a resposta for sim, não há motivos para evitar um diálogo. Se for não, o mundo todo observará que o objetivo da organização islâmica ainda é a destruição de Israel, conforme prega a sua carta de fundação. Mas líderes do Hamas já indicaram o contrário no passado. Outras autoridades palestinas, incluindo o Abbas, também foram contra a existência de Israel em outra época e, atualmente, aceitam sem problemas.

Não podemos esquecer também que o Hamas foi eleito democraticamente. Segundo o ex-presidente George W. Bush escreveu em seu livro Decision Points, um dos maiores inimigos do Hamas, “a verdade é que os palestinos estavam cansados da corrupção do Fatah. O Hamas conquistou 74 das 132  cadeiras (do Parlamento palestino). Muitos interpretaram os resultados como um revés para a paz. Eu discordo. O Hamas venceu com uma plataforma de governo limpo e serviços públicos eficientes, não guerra contra Israel”.

No fim, a Terceira Via, ainda que com muitas imperfeições, se tornou o governo limpo com serviços públicos suficientes na Cisjordânia. Mas, em Gaza, quem governa é o Hamas. Gostem ou não, uma hora terão que se sentar com os líderes da organização islâmica.

Abaixo, dados de recente pesquisa sobre a situação dos palestinos do Palestinian Center for Policy and Survey Research, realizada em outubro.

. 70% considera as condições de vida em Gaza ruins contra 34% na Cisjordânia

. 32% afirmam haver liberdade de imprensa em Gaza contra 58% na Cisjordânia

. 60% consideram Gaza segura. Percentual igual fala o mesmo da Cisjordânia

. As instituições públicas são consideradas boas para 30% em Gaza e 43% na Cisjordânia

. Se eleições fossem realizadas hoje para a Presidência palestina, Abbas receberia 57% dos votos. Ismail Haniyeh, do Hamas, teria 36%. Caso Marwan Berghouti, do Fatah e preso em Israel, fosse o candidato no lugar de Abbas, ele teria 65% contra 30% de Haniyeh. Fayyad não foi incluído na pesquisa

. Em eleições parlamentares, o Fatah receberia 45%, o Hamas 26% e os restante 12%

. Para 30%, a separação entre Gaza e a Cisjordânia é definitiva. Para 51%, a união ocorrerá daqui um longo tempo. Apenas 14% afirmam que a reunificação ocorrerá no curto prazo

. Uma vitória do Hamas em eleições parlamentares consolidaria a divisão entre a Cisjordânia e Gaza para 86%

. 69% apóiam que a Autoridade Palestina vá ao Conselho de Segurança defender a criação de um Estado

. 54% defendem uma declaração unilateral

. A Turquia é o país mais popular entre os palestinos, com 25%, seguida do Egito (18%), Síria (8%), Irã (7%) e Arábia Saudita (7%)

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O jornalista Gustavo Chacra, mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia, é correspondente de “O Estado de S. Paulo” em Nova York. Já fez reportagens do Líbano, Israel, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Egito, Turquia, Omã, Emirados Árabes, Yemen e Chipre quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Participou da cobertura da Guerra de Gaza, Crise em Honduras, Crise Econômica nos EUA e na Argentina, Guerra no Líbano, Terremoto no Haiti e crescimento da Al Qaeda no Yemen. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Este blog foi vencedor do Prêmio Estado de Jornalismo em 2009, empatado com o blogueiro Ariel Palacios


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