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De Istambul a Brasília – Governos turco e brasileiro parecem almas gêmeas

gustavochacra

09 de março de 2010 | 00h32

Há muitas similaridades da Turquia com o Brasil na política externa internacional. E não apenas na questão iraniana, onde os dois países se posicionam contra a aprovação de uma resolução com novas sanções ao regime de Teerã. Na verdade, como no Brasil, nesta década, foi quebrado um tabu. Nos anos 1980, o então presidente da FIESP e ex-presidente do clube Paulistano, Mario Amato, disse que se mudaria do Brasil caso Lula fosse eleito. A elite turca, nesta época, também tinha arrepios quando cogitava a possibilidade de um governo religioso – no caso muçulmano, mas devemos levar em conta que esta elite também era oficialmente islâmica. Aliás, o governo não é religioso no sentido do Hamas ou da Frente Islâmica de Salvação, mas dos partidos democrata cristãos europeus.

Em 2002, Lula conseguiu ser eleito e conta com apoio de grande parte do empresariado, incluindo o seu vice-presidente. O PT finalmente havia chegado ao poder e as resistências estavam distantes de ser a mesma dos anos anteriores. Na mesma época, Recep Tayyip Erdogan, liderando o AKP (sigla em turco para Partido da Justiça e do Desenvolvimento), alcançou o posto de primeiro-ministro. Os religiosos muçulmanos também tomavam o poder na secular Turquia de Mustafá Kemal Ataturk. Nos dois casos, que fique claro, pela via democrática.

Tanto o Brasil quanto a Turquia tiveram elevados índices de inflação no passado. E tanto Lula quanto Erdogan herdaram uma economia estabilizada dos governos anteriores. E os dois conseguiram alavancar o crescimento de seus países na última década, mantendo uma política econômica responsável, apesar e a Turquia ter sofrido mais com a crise.

Os chanceleres também são parecidos, como notou a revista Foreign Policy. Ahmet Davutoglu e Celso Amorim adotaram posições independentes com ambições de se tornarem potências e lideranças regionais ou mesmo globais. Quer queira quer não, Brasil e Turquia vêm conseguindo respeito, apesar de Erdogan tratar normalmente o ditador do Sudão e criticar aliados israelenses, enquanto Amorim não reconhece o governo eleito democraticamente em Honduras e ignora a violação dos direitos humanos em Cuba. Para completar, o AKP e o PT possuem ambições de controlar o poder. No caso turco, a oposição, por culpa própria e divisões internas, não tem condições de derrotar Erdogan e seus aliados. Já no Brasil, o cenário eleitoral ainda é incerto.

Quem quiser, pode ler a comparação que escrevi há alguns meses, quando estava na Turquia, sobre Lula e Erdogan. E também sobre as recentes prisões no Exército turco na edição impressa do Estadão.

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