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De Jacarta a Riad – Os EUA são aliados, e não inimigos, do mundo islâmico

gustavochacra

11 de novembro de 2010 | 02h19

Algumas pessoas imaginam que os Estados Unidos estejam em guerra contra o mundo islâmico. Na verdade, os americanos são aliados de todos os países de maioria muçulmana, menos o Irã e a Síria. Ontem mesmo, apenas durante a noite, recebi emails do Departamento de Estado elogiando as eleições jordanianas e outro anunciando uma ajuda adicional de US$ 150 mil para os palestinos. Havia um também sobre encontro de Hillary Clinton com o chanceler egípcio, Aboul Gheit, e o chefe da inteligência, Omar Suleiman.

Se levarmos em conta a longa conversa de Hillary com o premiê libanês, Saad Hariri, na semana passada, observaremos que os EUA mantêm ótimas relações com quatro vizinhos de Israel – Egito, Jordânia, Líbano e Autoridade Palestina.

Barack Obama aproveitou a sua visita à Indonésia, mais populosa nação islâmica do mundo e onde ele passou parte da infância, para voltar a insistir na aproximação dos EUA com os muçulmanos. Em discurso em uma universidade em Jacarta, capital do país, o presidente disse que todos devem se unir na luta contra o terrorismo.

Lembrando de seu discurso no Cairo, em junho de 2009, quando se dirigiu diretamente para os muçulmanos, Obama afirmou ontem que os EUA “não estão e nunca estarão em guerra contra o islamismo”. “Nós precisamos trabalhar juntos para derrotar a Al Qaeda e seus afiliados que não podem reivindicar ser líderes de nenhuma religião – certamente não de uma (religião) grandiosa e global como o Islã”, acrescentou.

Sem falar que, nos anos 1990, os EUA levaram adiante duas guerras em defesa dos muçulmanos. Primeiro para forçar Saddam Hussein a desocupar o Kuwait. E depois para evitar o genocídio sérvio contra a população islâmica em Kosovo. Tem mais, nos anos 1980, os americanos patrocinaram os mujahedin para lutar contra a União Soviética.

Segundo escreveu George W. Bush em seu livro Decision Points, “com a ajuda dos Estados Unidos, Paquistão e Arábia Saudita, os rebeldes conseguiram expulsar os soviéticos. Dois anos mais tarde, esta superpotência entrou em colapso. Livre dos ocupantes comunistas, a população afegã teve a chance de reconstruir seu país. Mas o governo dos EUA (de Bush pai) não possuía mais um interesse nacional no Afeganistão e cortou o apoio. Isso criou um vácuo. Guerreiros tribais que derrotaram os soviéticos começaram a combater entre si. No fim, o Taleban, composto por fundamentalistas islâmicos, assumiu o poder”.

Anos depois, Bush derrubou o Taleban e instalou um regime aliado em Cabul. No Iraque, Saddam Hussein, que também havia sido um parceiro nos anos 1980, acabou deposto. No governo, estão aliados americanos. Faltam apenas a Síria e o Irã. Nos dois casos, existe uma tentativa de aproximação. Comparem com o mundo da Guerra Fria, quando toda a Europa Oriental era inimiga dos EUA, sem falar na superpotência União Soviética.

Bush mostra-se bem menos pró-Israel em livro

(texto baseado no post de ontem e publicado na edição impressa do jornal)

Em seu livro Decision Points (Pontos de Decisão), lançado nesta semana nos Estados Unidos, o ex-presidente George W. Bush demonstrou ser um líder bem menos pró-Israel do que costuma ser classificado – até a mãe dele, Barbara Bush, segundo ele escreve, chegou a chamá-lo de “primeiro presidente judeu americano” por sempre adotar um viés favorável aos israelenses.

Além de ter aconselhado o então premiê de Israel, Ehud Olmert, a não bombardear uma instalação síria que, segundo os israelenses, integrava um programa nuclear secreto do regime de Damasco (os sírios negam), Bush também criticou a forma como Israel levou adiante a ofensiva contra a guerrilha Hezbollah no Líbano, em 2006.

Deixando claro que os israelenses estavam corretos em responder ao sequestro de dois de seus soldados, o ex-presidente afirma que “Israel perdeu uma chance de dar um duro golpe no Hezbollah e seus patrocinadores Irã e Síria. Infelizmente, eles (os israelenses) não souberam usar esta oportunidade”.

“Os bombardeios atingiram alvos de questionável valor militar, incluindo lugares no norte do Líbano, bem distantes da base do Hezbollah (no sul do país)”, escreve.

Bush também diz que a “provocativa visita” de Ariel Sharon à Esplanada das Mesquitas (Monte do Templo, para os judeus) em Jerusalém contribuiu para a eclosão da Segunda Intifada (levante palestino”.

No capítulo Agenda da Liberdade, Bush também elogia alguns líderes árabes e indica que o problema na região seria a falta de democracia – e não um problema ligado à religião islâmica ou à cultura árabe.

“O triunfo da democracia no Líbano (na Revolução dos Cedros, em 2005) ocorreu dois meses depois de eleições livres no Iraque e a vitória do presidente (Mahmud) Abbas nos territórios palestinos. Nunca antes três sociedades árabes haviam progredido tanto na direção da democracia. O Líbano, o Iraque e os territórios palestinos tinham o potencial de servir de base para uma região pacífica”, escreveu Bush.

Mesmo a vitória do Hamas nas eleições parlamentares palestinas, que não foi reconhecida pelo seu governo, é vista dentro do contexto de avanço democrático. “A verdade é que os palestinos estavam cansados da corrupção do Fatah. O Hamas conquistou 74 das 132 cadeiras (do Parlamento palestino). Muitos interpretaram os resultados como um revés para a paz. Eu discordo. O Hamas venceu com uma plataforma de governo limpo e serviços públicos eficientes, e não de guerra contra Israel.”

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O jornalista Gustavo Chacra, mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia, é correspondente de “O Estado de S. Paulo” em Nova York. Já fez reportagens do Líbano, Israel, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Egito, Turquia, Omã, Emirados Árabes, Yemen e Chipre quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Participou da cobertura da Guerra de Gaza, Crise em Honduras, Crise Econômica nos EUA e na Argentina, Guerra no Líbano, Terremoto no Haiti e crescimento da Al Qaeda no Yemen. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Este blog foi vencedor do Prêmio Estado de Jornalismo em 2009, empatado com o blogueiro Ariel Palacios

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