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De Jaffa a Ariel – Lieberman, chanceler de Israel, foi racista ou realista na ONU?

gustavochacra

29 de setembro de 2010 | 08h35

O discurso na Assembléia Geral da ONU serve para os países expressarem as posições de seus governos na arena internacional. Lula não pôde comparecer neste ano. Em seu lugar, Celso Amorim discursou em nome do Brasil. Concorde-se ou não com o que disse o chanceler, esta é a posição do governo brasileiro. O mesmo vale para quase todos os países. A não ser por Israel em 2010.

O premiê Benjamin Netanyahu não teve condições de vir a Nova York neste ano. O melhor teria sido optar pelo mais simples e pedir para o experiente Shimon Peres discursar em seu lugar. Porém o responsável por falar em nome de Israel foi o ultra nacionalista Avigdor Lieberman.

Em vez de seguir Netanyahu, chefe de governo israelense, e fazer um discurso nas linhas que o premiê realizou em junho do ano passado em uma universidade de Israel, Lieberman optou por anunciar ao mundo a sua proposta de paz.

Primeiro, queria deixar claro que o ministro israelense foi realista em alguns pontos ao dizer que as guerras entre palestinos e Israel são responsáveis por menos de 10% das mortes no Oriente Médio desde a Segunda Guerra – eu calculo em 1%. Em segundo lugar, não é absurdo, apesar de triste, afirmar que irá demorar décadas até ser encontrada uma solução. Torcemos para que seja antes, mas Lieberman tem um ponto ao argumentar ser preciso mudar uma geração.

Agora, vamos para a parte polêmica do discurso. “O princípio para um acordo final não deve ser o de troca de terras por paz, mas de troca de territórios habitados. Deixe-me ser claro – não falo de remover populações, mas mover fronteiras que reflitam as realidades demográficas”, disse Lieberman.

Vamos às conclusões

. O chanceler israelense não falou em limpeza étnica, e isso precisa ficar claro. Na visão dele, ninguém seria removido de suas casas

. Esta proposta não se diferencia muito da Partilha de 1947, apesar de, na época, o Estado judaico proposto ter também uma população majoritariamente árabe

. Há grandes populações árabes em Israel bem distantes da fronteira. Como incluir Jaffa, que é praticamente uma região de Tel Aviv? E Haifa, onde árabes e judeus convivem nos mesmos prédios de apartamento? A parte antiga de Acre seria ligada à Cisjordânia por túnel subterrâneo?

. Depois de 62 anos, os árabes de Israel podem ter a identidade palestina, mas também possuem a israelense. Falam hebraico, vão a universidades de Israel e são parte integrantes da sociedade do país. Eles têm o direito de optar pela cidadania que quiserem

. Não fica claro o porquê de Lieberman querer mover as fronteiras. Os principais assentamentos ficarão do lado israelense em qualquer acordo de paz. Esta proposta dele, no caso, seria para manter as menores colônias no meio da Cisjordânia ou uma atitude racista para não ter árabes em Israel?

. Finalmente, quem faria o hommus em Israel? Como sabemos, os palestinos podem não ter o talento culinário dos libaneses e sírios, mas são a salvação israelense (por favor, esta parte é apenas uma brincadeira para aliviar o debate)

. Na prática, a proposta de Liberman é impossível de ser realizada. Os dois Estados seria uma sucessão de pontos deconectados, atravessando ambos territórios. Talvez, até a solução do programa de comédia e jornalismo Daily Show, feita com ironia, seja melhor – “Cada povo teria direito a ficar com o território seis meses do ano. Assim, quando estivessem sem, não atacariam os inimigos pois saberiam que, em poucos meses, estariam habitando as mesmas casas”

Antes de finalizar, temos que lembrar que parte da comunidade judaica dos EUA condenou o discurso de Lieberman na ONU, segundo reportagem o diário israelense Haaretz

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O jornalista Gustavo Chacra, mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia, é correspondente de “O Estado de S. Paulo” em Nova York. Já fez reportagens do Líbano, Israel, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Egito, Turquia, Omã, Emirados Árabes, Yemen e Chipre quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Participou da cobertura da Guerra de Gaza, Crise em Honduras, Crise Econômica nos EUA e na Argentina, Guerra no Líbano, Terremoto no Haiti e crescimento da Al Qaeda no Yemen. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Este blog foi vencedor do Prêmio Estado de Jornalismo em 2009, empatado com o blogueiro Ariel Palacios

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