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De Jaffa a Beirute – Palestinos passam a ser cidadãos de segunda classe no Líbano

gustavochacra

18 de agosto de 2010 | 10h27

Os refugiados palestinos, desde ontem, deixaram de ser cidadãos de terceira classe no Líbano e passaram a ser de segunda classe. A partir de agora, segundo lei aprovada ontem no Parlamento em Beirute, eles poderão trabalhar nas mesmas profissões que os demais estrangeiros residentes no país.

Profissões tradicionais, como medicina, engenharia e direito não serão abertas aos palestinos, já que são restritas aos libaneses. O mesmo vale para empregos públicos.

Ao todo, há cerca de 400 mil palestinos vivendo em campos ao redor do Líbano. Alguns já são a terceira geração nascida no território libanês. Estes refugiados foram expulsos ou deixaram por conta própria as suas cidades e vilas no que hoje é o Estado de Israel, segundo os historiadores revisionistas israelenses, Benny Morris (professor da Ben Gurion), Avi Shlaim (professor de Oxford) e Ilan Pape (professor de Exeter).

Os libaneses não concordam em dar cidadania aos palestinos porque afetaria a balança sectária, com o poder dividido entre cristãos maronitas, muçulmanos sunitas, muçulmanos xiitas e, em menor escala, druzos, cristãos ortodoxos e outras denominações cristãs. A nacionalização dos palestinos elevaria o número de sunitas, e isso não é aceito por cristãos, druzos e xiitas.

Em uma série de visitas que fiz a campos de refugiados, entrevistei dezenas de palestinos. Eles me disseram não fazer questão da cidadania, já que isso reduziria a sua luta por um dia retornarem para as suas cidades em Israel. O ideal, segundo me afirmaram, seria a solução síria, onde os palestinos, mesmo sem cidadania oficial, possuem todos os direitos dos sírios, menos o voto – o que, convenhamos, em Damasco, não muda absolutamente nada -, em uma espécie de “green card”.

Os palestinos refugiados na Jordânia possuem cidadania e todos os direitos, a não ser uma minoria deles, que não tem este mesmo status. Ao contrário do que dizem, praticamente não existem palestinos nos outros países árabes. Havia uma afluente comunidade no Kuwait, mas eles foram obrigados a sair graças à decisão de Yasser Arafat de apoiar Saddam Hussein na Guerra do Golfo – o Iraque havia invadido o Kuwait.

Nos Emirados Árabes e no Qatar há uma elite palestina jovem de expatriado que vive nas mesmas condições que os libaneses, ingleses e americanos.

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O jornalista Gustavo Chacra, mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia, é correspondente de “O Estado de S. Paulo” em Nova York. Já fez reportagens do Líbano, Israel, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Egito, Turquia, Omã, Emirados Árabes, Yemen e Chipre quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Participou da cobertura da Guerra de Gaza, Crise em Honduras, Crise Econômica nos EUA e na Argentina, Guerra no Líbano, Terremoto no Haiti e crescimento da Al Qaeda no Yemen. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Este blog foi vencedor do Prêmio Estado de Jornalismo em 2009, empatado com o blogueiro Ariel Palacios

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