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De Jakarta a Marrakesh – Nem todo muçulmano é árabe e nem todo árabe é muçulmano

gustavochacra

12 de agosto de 2010 | 09h42

Primeiro, feliz Ramadan a todos os leitores muçulmanos.

E, aproveitando a data, queria dizer que nem todo muçulmano é árabe e nem todo árabe é muçulmano. Aliás, os árabes são minoria entre os muçulmanos. O Irã, Indonésia, Afeganistão, Paquistão, Malásia, Bangladesh, Cazaquistão, Uzbequistão e diversos outros países seguem a religião islâmica apesar de não serem árabes. Além disso, existem árabes e muçulmanos vivendo como minorias pelo mundo. Apenas no Brasil, existem 7 milhões de árabes, incluindo o prefeito de São Paulo. Há mais muçulmanos na Índia do que em qualquer nação árabe.

Os países árabes também possuem enormes diferenças entre si. Todos adotam a mesma escrita do árabe moderno. Mas os dialetos que utilizam são bem distintos. No Marrocos, existe enorme influência berbere. Um argelino não conseguirá falar no seu dialeto com um libanês e terão que apelar para o árabe tradicional.

As mulheres são obrigadas e se cobrir em países mais conservadores no Golfo Pérsico, como a Arábia Saudita e o Kuwait, além de não possuírem uma série de direitos. No Líbano, na Síria e nos territórios palestinos (na Cisjordânia, não em Gaza), podem se vestir como quiserem e tem os mesmos direitos que os homens.

A culinária varia muito. Os pratos árabes que conhecemos no Brasil, como quibe, esfiha, falafel, taboule, hommus e kafta são libaneses e sírios. Os palestinos também consomem estas comidas, apesar de não terem o mesmo talento dos cozinheiros de Beirute e Damasco.

Os regimes árabes podem ser monarquias absolutistas (Jordânia), Repúblicas ditatoriais (Egito) ou democracias frágeis (Líbano e Iraque).

No mundo árabe também há cristãos. O Líbano possui proporcionalmente a maior população desta religião. Não dá para saber ao certo o número porque os próprios cristãos não autorizam a realização de um censo. Estima-se cerca de 40% do total. Este número subiria para até 70% se contassem os que vivem no exterior. Podem ser cristãos maronitas, grego-ortodoxos, melquitas, assírios, caldeus, armênio-ortodoxos, armênio-católico, protestantes e diversas outras denominações.

Os cristãos sírios são ortodoxos e vivem bem. Os palestinos também seguem este ramo do cristianismo. Estes cristãos são quem começaram o movimento pela independência palestina, lutando contra Israel. O maior intelectual palestino era Edward Said, um cristão. Eles vivem em cidades como Ramallah, Belém e Jerusalém. Os que têm cidadania israelenses costumam viver em cidades árabes ao lado dos muçulmanos, como Jaffa e Nazaré. São raros os que seguem o Exército.

A situação dos cristãos coptas no Egito é grave. São uma classe inferior e começaram a ser perseguidos. O governo não faz nada para protegê-los. Nos últimos dez anos, a condição deles se deteriorou. Os cristãos iraquianos, como grande parte da classe média de Bagdá, fugiu do Iraque durante a guerra. Foram para a Síria e, em menor escala, para o Líbano. Nos dois países, conseguiram se integrar em às sociedades.

Existiam milhares de judeus no mundo árabe, especialmente no Marrocos, Yemen, Síria, Líbano e Egito. Eles eram a elite Aleppo, Cairo e Bagdá. Com a criação do Estado de Israel, passaram a ser perseguidos em muitos destes países. Em outros, como no Líbano, o cenário foi menos grave inicialmente. Tanto que judeus sírios optavam por ir viver em Beirute em vez de Tel Aviv. Com a chegada da OLP, no fim dos anos 1960, a vida deles se tornou intolerável. Parte dos judeus foi partiu para Israel e outra parte para a América.

Ainda existem judeus no Irã e na Turquia, que não são árabes. Damasco e Beirute também contam algumas dezenas ou centenas de judeus – ver minha reportagem sobre o assunto aqui no blog.

Como curiosidade, o Bahrein quebra todos os estereótipos. Sua embaixadora em Washington e mulher e judia.

Obs. A discussão do post anterior não deve ser trazida para este. Se quiserem, publiquem lá. O debate está aberto

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O jornalista Gustavo Chacra, mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia, é correspondente de “O Estado de S. Paulo” em Nova York. Já fez reportagens do Líbano, Israel, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Egito, Turquia, Omã, Emirados Árabes, Yemen e Chipre quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Participou da cobertura da Guerra de Gaza, Crise em Honduras, Crise Econômica nos EUA e na Argentina, Guerra no Líbano, Terremoto no Haiti e crescimento da Al Qaeda no Yemen. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Este blog foi vencedor do Prêmio Estado de Jornalismo em 2009, empatado com o blogueiro Ariel Palacios

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