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De Jerusalém a Nova York – A filha patricinha de Edward Said, o maior intelectual palestino

gustavochacra

21 de abril de 2010 | 08h16

Najla Said, não fosse pelo nome, poderia ser descrita como uma mulher que cresceu no seio da elite judaica liberal de Nova York. Seria, segundo ela própria, uma espécie de JAP, que é a sigla em inglês para “princesa judia americana”, que serve de descrição estereotipada para as patricinhas desta religião na cidade. Freqüentava Bar Mitzvas e comia pretzels. Teve mais relacionamentos amorosos com judeus do que com gentis (não-judeus). Passava férias de verão no sofisticado balneário dos Hamptons e esquiava nos invernos em Aspen ou Vail. Uma de suas maiores preocupações era comprar sapatos e bolsas. Sua família tinha dinheiro. “Muitos me consideravam uma judia sefaradi”, diz Najla, uma morena de 35 anos com feições árabes, em sua peça Palestine.

Mas, na realidade, sua história era bem diferente da de suas amigas. “Sou filha de Edward Said. Do intelectual Edward Said. Do mais famoso palestino-americano que já existiu”, conta Najla. Ela entende bem o que isso significa hoje. Seu pai, em obras como Orientalismo, revolucionou a forma de americanos e europeus enxergarem o mundo árabe. Além disso, em seus artigos, criticava duramente a ocupação israelense de áreas palestinas, se transformando no mais importante porta-voz dos palestinos no Ocidente. E o que dizia possuía peso. Seu inglês era perfeito. Era professor da Universidade Columbia, uma das mais prestigiadas do mundo e com cerca de um quarto de seus alunos sendo judeus. Sempre se vestia de forma impecável, parecendo um lorde inglês, com terno, gravata e cabelos grisalhos penteados para trás. Para completar, Said era cristão e de Jerusalém.

Na peça, um monologo que teve todos os ingressos esgotados para os três meses em cartaz no circuito off Broadway, Najla lida com este problema da dupla identidade e de como visitas ao Oriente Médio e acontecimentos internacionais transformaram a sua vida e, indiretamente, a de seu pai e de sua família. Desde pequena, ela se sentia em parte libanesa, por ser a terra de sua mãe e por visitar o país todos os anos ao longo de sua infância. Eram os anos da guerra civil (1975-90) e, em 1983, ela, sua mãe e seu irmão foram obrigados a ser evacuados.

Em 1992, quase uma década mais tarde, Najla retornaria para o Oriente Médio. Era o verão anterior ao início de suas aulas em Princeton e seria a primeira visita de seu pai às suas terras em quatro décadas. E ela apenas pensava se as suas amigas judias estariam em boates de Tel Aviv. O problema é que sua viagem foi, segundo ela própria diz, para a “Palestina”. E junto com o seu pai, o que atraiu uma enorme cobertura da mídia. Visitaram de Gaza à casa onde vivia Said, em Jerusalém. Seu pai era recebido como herói entre os palestinos pela defesa da causa deles nos Estados Unidos. A ocupação israelense a chocou, especialmente ao ver palestinos de sua idade e comparar a vida deles com a sua novaiorquina e com os relatos de suas amigas que visitavam Israel. Ao saírem dos territórios palestinos, passaram pela Jordânia, onde ela conheceu Yasser Arafat, de quem seu pai tinha muitas divergências – Said nunca apoiou as negociações de Oslo. No fim, acabaram em Beirute, descrita por Najla na forma tradicional dos libaneses, orgulhosos de sua culinária, da beleza de suas mulheres bonitas nas praias, dos montes nevados, da vida noturna e da sociedade cosmopolita que fala francês e inglês. “É como se fosse a Califórnia”, afirma Najla, sem deixar de mencionar o preconceito existente entre os libaneses, com a rivalidade entre os grupos religiosos.

Sua grande transformação ocorreria depois do 11 de Setembro. Mesmo sem ser muçulmana e apesar de os palestinos não terem nada a ver com os atentados, ela ficou com medo da reação que os amigos americanos teriam por seu sobrenome ser Said. Najla chegou a brigar com um personal trainer em Manhattan que teria criticado os palestinos e ligado eles a Bin Laden. E disse que, pela primeira vez, passou a se sentir árabe. Anos depois, em 2006, ela estava em Beirute quando os Israel bombardeou o Líbano em guerra contra o Hezbollah. “Eu passei a odiar os israelenses. Ficava pensando nas pessoas que havia visto em Tyro, onde eu havia tomado sol um dia antes”. Mas passou. “Diferentemente de muitos árabes, eu tenho amigos judeus e tento entender o outro lado. E, além disso, todas as noites que eu estava em Beirute, falava com o meu psicanalista por telefone. Claro, ele era judeu”, diz. Aliás, seu pai, maior porta-voz palestino nos EUA, morreu de câncer em um hospital judaico de Nova York. “Hoje, visito seu túmulo todos os anos nos montes do Líbano”, finaliza.

Blog do Guterman

Alguns leitores tentam me atacar no blog do Guterman. E outros tentam atacar o Guterman no meu blog. Conforme ele escreveu no blog dele, não concordamos em tudo, o que é normal. Mas, por incrível que pareça, quem me indicou para o Estadão foi o Guterman. Trabalhamos juntos na Folha, onde ele era editor de Internacional e sempre me deu força para seguir no jornalismo e na vida acadêmica. Inclusive, com uma carta de recomendação para a Columbia. No Estadão, o Guterman é o responsável direto pela popularização dos blogs e, como eu, é um dos raros que lê e tenta responder a todos os comentários. Falar do conflito no Oriente Médio não é fácil. As pessoas levam em conta nossos sobrenomes para nos atacar. Atingem nossa família, nossas origens para tentar defender um argumento. Como a Najla Said, tive a sorte de crescer em um meio com muitos judeus e árabes em São Paulo e, agora, em Nova York. Jogava pólo aquático pelo Paulistano contra a Hebraica, tinha colegas judeus na escola, já fiquei com muitas judias (e as adoro) e meus três primeiros editores tinham origem judaica – o Guterman, o Sergio Malbergier e o Jaime Spitzkovsky. Nenhum deles jamais interferiu em uma matéria minha. Ao contrário, abriram o espaço necessário para que eu escreva aqui hoje.

Comentários islamofóbicos, anti-semitas e anti-árabes ou que coloquem um povo ou uma religião como superiores não serão publicados. Tampouco ataques entre leitores ou contra o blogueiro. Pessoas que insistirem em ataques pessoais não terão mais seus comentários publicados. Não é permitido postar vídeo. Todos os posts devem ter relação com algum dos temas acima. O blog está aberto a discussões educadas e com pontos de vista diferentes

Perfil (a ferramenta ao lado não funciona) – O jornalista Gustavo Chacra, mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia, é correspondente de “O Estado de S. Paulo” em Nova York. Já fez reportagens do Líbano, Israel, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Egito, Turquia, Omã, Emirados Árabes, Yemen e Chipre quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Participou da cobertura da Guerra de Gaza, Crise em Honduras, Crise Econômica nos EUA e na Argentina, Guerra no Líbano, Terremoto no Haiti e crescimento da Al Qaeda no Yemen. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Este blog foi vencedor do Prêmio Estado de Jornalismo em 2009, empatado com o blogueiro Ariel Palacios

Leia os blogs dos correspondentes internacionais do Estadão – Ariel Palacios (Buenos Aires), Patricia Campos Mello (Washington), Jamil Chade (Genebra), Claudia Trevisan (Pequim) e Adriana Carranca (pelo mundo)

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