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De Maresias a Tel Aviv – Um pouco da história do litoral paulista e do mundo

gustavochacra

30 de dezembro de 2009 | 16h46

Aqui em Nova York, as pessoas mais ricas, que trabalham em Wall Street ou galerias de arte do Chelsea, viajam para os Hamptons no verão. Os porteños da Recoleta e de Belgrano, como pode melhor descrever o Ariel Palácios, variam entre Búzios, Canasvieiras, Trancoso e Punta. Os da Boca e Caballito se contentam com o “balneário sindical de Mar Del Plata”. Cariocas, israelenses de Tel Aviv e libaneses de Beirute, sejam do Leblon ou de Ashrafyieh, têm um pouco mais de sorte, já que nasceram em cidades abençoadas por areias brancas a uma rua de distância. Sorte deles, mas parisienses, berlinenses, romanos, madrilenhos e paulistanos precisam colocar as malas no carro e viajar para praias no verão. E, todos os anos, surgem novos destinos como moda. A costa croata e turca sobem, enquanto a cipriota e a grega decaem.

No Brasil, não é diferente, e o movimento de sobe e desce na praia do momento varia tanto quanto a maré na lua cheia (verão também dá direito a metáforas bregas). Veja o caso da Bahia. Nos anos 1980, Porto Seguro chegou a ser considerada uma cidade descolada, até descobrirem Arraial D’Ajuda, no fim da mesma década. Nos anos seguintes, foi a vez de Trancoso e da sua vizinha Caraíva. Boipeba e Maraú, perto de Ilhéus, eram as preferidas mais recentemente. Neste réveillon, a escolhida foi Santo André, que ironicamente leva o nome de uma cidade da Grande São Paulo.

Os paulistas sem tempo para pegar o avião e ir para o litoral baiano, até os anos 1960, veraneavam, como se dizia, em Santos. Quem podia se hospedava no Hotel Atlântico, que seria o Copacabana Palace da baixada, se equiparando ao Negresco de Nice, o Maria Cristina de San Sebastian, o Cecil de Alexandria, ou o Phoenicia de Beirute. Depois, os veranistas rumaram para o sul. Primeiro São Vicente, com o então glamuroso Ilha Porchat. Construíram casas na Praia Grande e em Itanhanhem, conhecida pela sua praia dos Sonhos. Guarujá despertou o encantamento dos paulistanos nesta mesma época. Pitangueiras e Astúrias foram divididas pelo edifício Sobre as Ondas. A Enseada, separada pelo morro do Maluf, evitou os prédios mais altos, enquanto Pernambuco permite apenas casas.

O Litoral Norte era uma faixa esquecida entre Bertioga e São Sebastião, com praias habitadas por pescadores caiçaras e algumas tribos indígenas. Meu avô comprou uma casa em Juquehy, nos anos 1950. Eu nasci duas décadas depois, quando o Palmeiras (meu time) ainda era time grande e as companhias aéreas do Brasil eram Varig, Vasp e Transbrasil. A viagem para esta região da costa paulista implicava em descer a Anchieta, entrar em Santos, pegar a balsa para o Guarujá, com fila, cruzar toda a Ilha de Santo Amaro, incluindo o Peqreque, até a segunda balsa, para Bertioga. Além disso, era preciso dirigir pela areia e estradas de terra na praia de São Lourenço, que viria a se tornar a Riviera, Itaguaré, Guaratuba, Boracéia, Engenho, Juréia e Barra do Una antes de chegar a Juquehy. Depois, vinham Praia Preta, Barra do Sahy, Baleia, Cambury, Boiçucanga, Maresias, Paúba, Santiago (impressionante a variedade de nomes), Toque-toque pequeno, Toque-toque grande, Guaecá e Baraqueçaba. Se estivesse empolgado, o turista ainda tinha – e tem – a opção de entrar em mais uma balsa para a Ilhabela. E os cariocas ainda dizem que praia de paulista é o rio Tietê…

Na escola, quando dizia que viajaria para Juquehy, perguntavam se era o hospício Juqueri, mais conhecido nos anos 1980. Hoje, a praia se tornou uma das mais badaladas no litoral. A quase deserta Baleia dos anos 1970 cresceu e teve uma página de reportagem publicada no Estadão de hoje. O curioso é que, apesar do asfalto, com o trânsito, a duração da viagem atualmente quase se equivale ao dos tempos da balsa, anteriores à construção da Rio-Santos. O progresso às vezes atrasa. A vantagem é que não há mais risco de a maré subir na Boracéia ou o carro atolar em São Lourenço.

E, apesar da demora, os paulistas são recompensados com um banho de mar, além de poder desfrutar de uma sensação que os cariocas nunca sentirão – a de deixar São Paulo para trás e, ao descer a serra, sentir a praia se aproximando. A alegria dura muito mais tempo do que o mero ato de atravessar a Vieira Souto ou a avenida Atlântica.

Para completar, enquanto em Tel Aviv praticam kitesurf, em Beirute fumam narguilé e no Rio jogam vôlei e frescobol, na costa de São Paulo, os paulistas podem ler o Estadão e ver a São Silvestre na TV, torcendo por um novo João da Mata, José João da Silva ou Rolando Veras. Já eu estou em Nova York e ontem fez menos nove graus. O Times Square, onde acontece a festa popular de réveillon, foi fechado por algumas horas agora de manhã por suspeita de atentado. Mas já está tudo bem. No ano passado, passei sozinho em um hotel de Jerusalém, escrevendo matéria, durante a guerra em Gaza – que também tem a sua praia (infelizmente, não sei porque, não consegui postar fotos)

Desejo apenas a todos um feliz ano novo e o blog continua normalmente nestes dias

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