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De Munique a Beirute – Uma vila libanesa onde todos falam portugues

gustavochacra

09 de outubro de 2010 | 05h14

Continuo na Alemanha e retorno neste domingo para Nova York, quando relatarei a minha experiencia em Dachau. Abaixo, segue texto de minha visita a vila de Sultan Yaqoub, no Libano, onde quase todo mundo fala portugues. Ela eh adaptada de reportagem que escrevi na edicao impressa do Estadao. E, mais uma vez, desculpem a ausencia de sinais graficos. Estou com problema no teclado do computador

Quem viaja para Sultan Yakoub é alertado que, uma vez na cidade, pode pedir informações em português que qualquer pessoa responde na hora. Afinal, nesta pequena vila em uma colina isolada no meio do vale do Beqaa, quase todos os mil habitantes moraram ou ainda têm um parente próximo que vive no Brasil.
 
A reportagem fez o teste e, realmente, o primeiro pedestre  abordado falava português. Era Hussein El Jaroush. Nascido no Líbano, ele foi há duas décadas para o Brasil, onde viveu por 13 anos. Passou por Salvador, Rio de Janeiro, Recife, Maceió e, como muitos conterrâneos, terminou em Santo André. Na cidade do ABC paulista, existe até uma espécie de clube, chamado “Chácara Sultan Yakoub”, onde os originários desta vila do Líbano se reúnem nos fins de semana para jogar futebol e fazer churrasco.
 
Há alguns anos, El Jaroush voltou ao Líbano para cuidar dos pais. Palmeirense, ele fica discutindo futebol com outro El Jaroush, o corintiano Jamal, que é um primo distante.  Aos 39 anos, ele largou o emprego em uma madeireira para ser verdureiro em Sultan Yakoub e, assim como o amigo Hussein, para fazer companhia aos pais idosos.
 
A cidade é pacata e, de vez em quando, passa alguém nas ladeiras. Jamal El Jaroush grita para uma mulher que o repórter fala “brasileiro”. Ele afirma que, no Líbano, é mais fácil dizer que a pessoa fala brasileiro do que português, se não perde-se muito tempo explicando. 
 
O importante, para Jamal, é manter a ligação com o Brasil pela língua. Especialmente por causa do seu filho. Ele diz que sempre fala em português com o menino, apesar de muitas vezes receber a resposta em árabe.
 
Seu sentimento de dupla nacionalidade é compartido por Jamal Chahim, que mora há 18 anos no Brasil e estava de passagem por Sultan Yakoub para visitar a família. Ele diz que se sente tanto brasileiro quanto libanês, mesmo tendo nascido no Líbano.
 
“Isso é comum no mundo de hoje”, segundo o antropólogo Paulo Pinto, que dirige o Instituto de Oriente Médio na Universidade Federal Fluminense. “Não é como antigamente, que a pessoa imigrava e não voltava mais. Hoje, com a internet e a facilidade de locomoção, essas pessoas podem circular e viver nos dois países”, afirmou em entrevista em Beirute.
 
A ligação com o Brasil se dá pela comida e pelos canais de TV. Há uma central que distribui as imagens da Globo e da Record mediante pagamento de uma mensalidade. Já o arroz, feijão e leite moça são vendidos no pequeno mercado da vila. Guaraná estava em falta.
 
Lamia Arab, nascida em Santos de pais de Sultan Yakoub, casou há 11 anos e  veio morar com o marido libanês na cidade. “Faço pudim, pavê e comida brasileira todos os dias” , disse, para acrescentar que nunca perde um capítulo das novelas.
 
Um dos mais antigos a ter morado no Brasil é Mohamad Chahim, de 84 anos. Ele já foi e voltou três vezes. A primeira, em 1949. “Eu mascateava na Vila Formosa”, disse, acrescentando sentir saudades.  Mas, devido à idade, Chahim afirma não poder mais visitar o Brasil. Seus cinco filhos, junto com os netos, o visitam todos os verões libaneses (inverno no Brasil).
 
Orgulhosos de Sultan Yakoub, os moradores mostram a mesquita local com o túmulo escavado pelo próprio homem que fundou a cidade e aqui viveu há mil anos. Do alto, pode-se enxergar todo o vale do Beqaa.
 
Uma das poucas pessoas que não fala português é o prefeito Mohammad Saleh, mas que é querido pelos brasileiros. Sunitas, quase todos os habitantes da cidade apóiam a coalizão governista 14 de Março, que é rival dos xiitas do Hezbollah.
 
Diferentemente de cidades vizinhas, Sultan Yakoub não viu seus habitantes imigrarem na primeira onda, no final do século 19 e início do 20, como é a caso da vizinha Zahle, principal cidade do Vale do Beqa. Nesta cidade, uma das maiores do Líbano, a principal avenida se chama Brasil. Famílias conhecidas em São Paulo, como a do político Paulo Maluf, são originárias de Zahle. Mas hoje há poucos brasileiros que vivem nesta cidade.

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O jornalista Gustavo Chacra, mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia, é correspondente de “O Estado de S. Paulo” em Nova York. Já fez reportagens do Líbano, Israel, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Egito, Turquia, Omã, Emirados Árabes, Yemen e Chipre quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Participou da cobertura da Guerra de Gaza, Crise em Honduras, Crise Econômica nos EUA e na Argentina, Guerra no Líbano, Terremoto no Haiti e crescimento da Al Qaeda no Yemen. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Este blog foi vencedor do Prêmio Estado de Jornalismo em 2009, empatado com o blogueiro Ariel Palacios

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