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De Franco a Zapatero – Espanha não ganhou (de 1 a 0) por ser democrata; Ditaduras também são campeãs

gustavochacra

12 de julho de 2010 | 10h43

A Espanha conquistou a Copa e uma cegueira coletiva parece ter tomado conta de análises ao redor do mundo. No campo futebolístico mesmo, com comentaristas dizendo que venceu o futebol ofensivo, de uma seleção que marcou apenas oito gols no torneio – número igual ao de Ronaldo em 2002, que ainda jogou uma prorrogação a menos.

Mas aqui não vou falar de futebol, já que errei na previsão de um título da Argentina ou dos EUA. Vou falar das bobagens que ligam o crescimento espanhol no futebol ao desenvolvimento econômico e à democratização. É um tremendo erro dizer que a Espanha é “boa” hoje nos esportes porque acabou o franquismo e a economia melhorou – apesar de capengar nos últimos dois anos.

Primeiro, temos que ver em quais esportes a Espanha é supostamente boa. No basquete, sempre tiveram clubes fortes em Barcelona, Madrid e Bilbao. O mesmo vale para o futebol. O Real Madrid era a melhor equipe do mundo desde a época do franquismo. O Barcelona também. A novidade foi o investimento do clube catalão nas divisões de base a partir dos anos 1990, permitindo o surgimento de uma seleção razoável como esta, que perdeu da Suíça e ganhou todos os jogos por um gol de diferença – se o paraguaio Cardozo acertasse o penalty nas quartas, a “fúria” teria sido um fiasco.

O tênis espanhol sempre teve grandes jogadores no saibro. Rafael Nadal apenas é o melhor entre os melhores e aprendeu a jogar na grama. Nada a ver com economia ou democratização. Fernando Alonso é o que se chama de “outlier”. Os espanhóis nunca ligaram para Formula 1, assim como os italianos ignoram o tênis. E surgiu um piloto fora de série por mérito próprio, como o tenista Guga Kuerten no Brasil. O pólo aquático teve seu momento na época do gênio Estiarte, mas esta atual seleção já ficou para trás. E justamente de países dos Bálcãs, que tiveram guerras, são economias atrasadas como a Sérvia ou pequenas como Montenegro. A Espanha continua medíocre na natação, atletismo, artes marciais e vôlei, apenas para citar alguns esportes que me lembrei agora.

Comunismo

Insisto, democracia tem pouco a ver com bom desempenho em esportes. Infelizmente, na época do comunismo, pequenos países da Cortina de Ferro derrotavam a Europa Ocidental nas Olimpíadas. Basta ver as medalhas da Alemanha Oriental, Romênia e Bulgária. Sem esquecermos de Cuba – totalmente decadente na última década. Mesmo hoje a China supera os EUA em medalhas de ouro. O Brasil conquistou a sua melhor Copa no governo Médici. A Argentina foi campeã com o Videla. Dois títulos italianos foram conquistados com o Mussolini, em 1934 e 38.

Portanto, ditaduras, e não democracia, podem ajudar em conquistas. E economia não necessariamente faz um campeão.

Na verdade, o mais importante é a cultura esportiva. O Brasil a tem no futebol, assim como a Espanha e a própria Holanda. Os eslavos se destacam no pólo aquático, no handball e no basquete. Mesmo no ballet ainda vemos os russos na frente – assisti a Romeu e Julieta no Lincoln Center na sexta e a bailarina principal era russa. Os americanos se destacam em uma série de esportes, mas ainda estão apenas iniciando a cultura futebolística. Em breve, serão uma das seleções mais fortes do mundo.

Oriente Médio

No Oriente Médio, os países são fracos em quase todos os esportes. Israel melhorou bastante no futebol e tem excelentes times no basquete, que também é bom na Síria e no Líbano, que já conquistou a Copa da Ásia. Os egípcios sempre vão bem na Copa da África de futebol, mas enfrentam uma “maldição” nas Eliminatórias das Copas do Mundo. Desta vez, perderam para a Argélia em jogo desempate no Sudão. Por outro lado, dominam o squash mundial e, como os sírios, produzem bons nadadores de travessia.

Os países do Golfo Pérsico são pequenos e têm investido na naturalização de atletas estrangeiros para suprir as suas deficiências. Apenas a Arábia Saudita consegue formar seleções razoáveis de futebol. O Iraque encantou o mundo com o titulo da Copa da Ásia de futebol, mas depois ficou para trás.

Pelo visto, os próximos anos continuarão assim no Oriente Médio. Apenas dá para prever que Israel talvez se classifique para a próxima Copa, mesmo disputando as complicadas Eliminatórias européias. Os países árabes desta região seguirão fracos.

E isso não tem nada a ver com as ditaduras ou regimes falidos. A Sérvia, tão caótica quanto o Líbano, é um gigante nos esportes coletivos, e derrotou até a Alemanha na Copa. A Argélia, tão ditatorial quanto o Egito e também árabe, se classificou para a Copa.

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O jornalista Gustavo Chacra, mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia, é correspondente de “O Estado de S. Paulo” em Nova York. Já fez reportagens do Líbano, Israel, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Egito, Turquia, Omã, Emirados Árabes, Yemen e Chipre quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Participou da cobertura da Guerra de Gaza, Crise em Honduras, Crise Econômica nos EUA e na Argentina, Guerra no Líbano, Terremoto no Haiti e crescimento da Al Qaeda no Yemen. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Este blog foi vencedor do Prêmio Estado de Jornalismo em 2009, empatado com o blogueiro Ariel Palacios


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