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De Nablus a Tel Aviv – Obama e a guerra de narrativas no Oriente Médio

gustavochacra

20 de maio de 2011 | 11h24

Barack Obama defende a criação de um Estado palestino desmilitarizado, com base nas fronteiras pré-1967, ajustando em alguns trechos para levar em conta as mudanças das últimas quatro décadas. O premiê de Israel, Benjamin Netanyahu, deve apresentar a sua proposta ao Congresso dos EUA, na terça-feira. A Liga Árabe propôs um Estado nas linhas de 1967, incluindo Jerusalém Oriental. A Autoridade Palestina irá buscar o reconhecimento internacional na Assembléia Geral das Nações Unidas em setembro.

Este é o presente do conflito e o resultado ainda permanece incerto. O problema está quando discutem o passado. Palestinos e israelenses travam uma guerra de narrativas, onde os dois lados acreditam genuinamente em suas versões da história. Noto que estas narrativas são apenas do imaginário de cada uma das populações, não refletindo o pensamento de todos israelenses e palestinos.

Narrativa idealizada israelense – Jerusalém sempre foi a capital dos judeus; a Cisjordânia é um território disputado e historicamente teria o nome de Judéia e Samaria; os árabes não aceitaram a partilha da ONU e  atacaram Israel em 1948, 67 e 73; os refugiados palestinos saíram porque quiseram; judeus foram expulsos de países árabes; em Jerusalém oriental, quando estava nas mãos árabes, era permitido urinar no muro das Lamentações; Arafat rejeitou a oferta de paz em 2000 e optou pela via do terrorismo na Intifadah; Sharon saiu de Gaza e, em troca, os israelenses receberam foguetes; a flotilha foi uma provocação; o objetivo palestino é destruir Israel, conforme diz a carta de fundação do Hamas

Narrativa idealizada palestina – A população da parte oriental de Jerusalém é árabe; a Cisjordânia é um território ocupado, onde vivem milhões de palestinos; os assentamentos são ilegais; a partilha da ONU criou um Estado judaico de maioria árabe; centenas de milhares de palestinos foram expulsos em 1948, em uma limpeza étnica que envolveu também massacres; Israel atacou em 1967 para ocupar a Cisjordânia; Barak propôs um Estado inviável para os palestinos; Israel restringe o acesso de muçulmanos à Esplanada das Mesquitas (Monte do Templo) em Jerusalém e de cristãos a Belém; Israel é um Estado terrorista que usa armas bancadas pelos EUA para matar civis palestinos; Sharon saiu de Gaza, mas manteve o bloqueio; a flotilha foi um ato humanitário; os palestinos reconhecem Israel, mas o oposto não ocorre

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Obviamente, há verdades e mentiras nas duas narrativas. Quem observa de fora, sabe que a realidade é bem mais complexa. E, deixando o passado de lado, Obama já percebeu, como qualquer outra pessoa, que não há possibilidade de Israel ser judaico, democrático e em todo o território. Caso opte pela primeira opção, precisa se retirar da Cisjordânia. As outras implicariam em um Estado de apartheid (onde milhões de palestinos não teriam direitos) ou o fim do Estado judaico, já que os palestinos seriam uma expressiva minoria ou até mesmo maioria no país com a concessão da cidadania.

No fim, a solução será algo próximo de um Estado palestino na Cisjordânia e na Faixa de Gaza. Os principais blocos de assentamento, próximos à fronteira de 1967, ficariam com Israel. Em troca, os palestinos receberiam outras terras da mesma qualidade que aproximassem os dois territórios. Jerusalém seria uma municipalidade unificada, mas capital dos dois países. Na prática, apenas a sede da Presidência palestina ficaria na parte oriental da cidade, com administração permanecendo em Ramallah, a poucos minutos de distância (sem levar em conta os postos de controle). Vale lembrar que Israel também mantém algumas instituições em Tel Aviv. Os refugiados poderiam retornar para o novo Estado palestino. Israel reconheceria que muitos deles foram expulsos no processo de independência. Países árabes, como o Egito, admitiriam que judeus também foram obrigados a deixar suas nações.

Leiam os blogs da Adriana Carranca, no Afeganistão, do Ariel Palacios, em Buenos Aires, do historiador de política internacional Marcos Guterman, em São Paulo, daClaudia Trevisan, em Pequim, e o Radar Global, o blog da editoria de Internacional do portal estadão.com.br e do jornal O Estado de S.Paulo”, sob o comando de Gabriel Toueg e João Coscelli

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O jornalista Gustavo Chacra, mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia, é correspondente de “O Estado de S. Paulo” em Nova York. Já fez reportagens do Líbano, Israel, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Egito, Turquia, Omã, Emirados Árabes, Yemen e Chipre quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Participou da cobertura da Guerra de Gaza, Crise em Honduras, Crise Econômica nos EUA e na Argentina, Guerra no Líbano, Terremoto no Haiti e crescimento da Al Qaeda no Yemen. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Este blog foi vencedor do Prêmio Estado de Jornalismo em 2009, empatado com o blogueiro Ariel Palacios

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