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De Nova York a Babel – Você sabe falar Globish?

gustavochacra

17 de setembro de 2010 | 08h41

Com 1.500 palavras dá para falar inglês – ou melhor, “Globish” (ou globês, em tradução livre). Esta é a teoria de Jean-Paul Nerriere, ex-diretor de marketing internacional da IBM e idealizador desta nova linguagem, usada por dezenas de milhões de pessoas em todo o mundo, que a utilizam sem perceber.

Atualmente, 96% das conversas em inglês no mundo envolvem pelo menos um interlocutor que não possui o inglês como primeira línguas. Pode parecer exagero, mas mesmo em países como os Estados Unidos, Inglaterra e Austrália, milhões de habitantes utilizam outra língua como primária. Em outros, como o Canadá e a África do Sul, outros idiomas também são utilizados.

“Meu sotaque entrega imediatamente que não sou americano, não sou inglês. Sou francês, claro. Mas esta forma de falar não me impediu de me dar bem importantes empregos internacionais. Viajei ao Japão, Coréia do Sul, Ásia para as Américas”, afirma Nerriere, que criou uma empresa para ensinar Globish que também possui como focos americanos e ingleses.

Dow Jones + Microsft = Globish

Segundo ele, em manifesto defendendo o Globish, “as pessoas ficavam felizes em fazer negócios comigo porque meu inglês é tão limitado quanto o deles. É mais fácil para falarmos em inglês entre a gente porque temos os mesmos problemas. Mas não problemas diferentes”.

Robert McCrum, autor do livro “Globish”, que relata a história da transformação do inglês em uma língua global, afirma que as principais transações comerciais do mundo são feitas neste novo idioma. “Dow Jones + Microsoft = Globish”, escreve em seu livro, um dos mais vendidos dos EUA no mês passado.

O Globish, além de se basear nas 1.500 palavras mais utilizadas do inglês – menos de 0,25% dos vocábulos existentes nos melhores dicionários –, utiliza algumas regras simples. Expressões idiomáticas devem ser evitadas. Elas são desconhecidas de muitas pessoas que estudaram o inglês como segunda língua. É mais fácil substituí-las por palavras comuns (veja quadro).

Evite piadas a frases longas

As orações devem sempre priorizar a forma direta e serem curtas. Grandes construções costumam atrapalhar a compreensão. Devem ser evitadas questões na forma negativa, que podem levar a erros. Os estrangeiros precisam sempre se munir de ilustrações para facilitar o entendimento. Piadas são proibidas no Globish. Nem sempre estrangeiros conseguem captar o humor em inglês.

De acordo com McCrum, os que utilizam o inglês como segunda língua consideram mais fácil falar entre si do que com um americano em inglês. Basicamente, é mais fácil para um israelenses falar em inglês com um finlandês ou um espanhol do que um irlandês ou escocês – neste caso, mesmo os americanos dizem ter dificuldade. A diferença ocorre justamente por eles falarem em Globish, não inglês – as frases são curtas, com palavras básicas e sem expressões idiomáticas, seguindo as regras do francês que idealizou – ou pelo menos colocou no papel – o Globish.

Oposição

Nem todos pessoas concordam com esta teoria. “Realmente me sinto mais à vontade conversando com europeus (não britânicos) do que com americanos. Mas acho mais difícil entender asiáticos”, diz o executivo colombiano Mario Chamorro, que foi presidente da Associação de Estudantes da Universidade Columbia, em Nova York.

“Quando falo com apenas um americano, não acho complicado. Mas quando estou em um grupo, fica difícil seguir as piadas e as expressões”, acrescenta. A brasileira Gisela Piper, casada com um americano, diz achar “mais simples falar com americanos. Prefiro escutar o ator Jeff Bridges falando inglês do que o Javier Barden”.

O Globish também se mistura a outras línguas, como nota McCrum “Em Mumbai, as pessoas falam uma mistura de híndi, urdu, gujarati, marathi e, finalmente, inglês”, escreve o jornalista inglês em seu livro.

Hi Kifak Çava

A classe média libanesa, quase sempre fluente em árabe, francês e inglês, apelidou a língua usada por muitos deles no dia a dia em Beirute como “hi-kifak-çava”, utilizando na mesma frase expressões como “Habib, Je t’aime very much” (“Querida, eu te amo muito”).

As diferenças entre o inglês e o Globish atingem até mesmo as redes de TV. Os americanos assistem à CNN, com apresentadores nascidos nos EUA, que falam inglês de Dallas, de Atlanta e de Chicago. Na CNN International, a preferência é por estrangeiros que falem inglês. Existem âncoras nascidos na Síria, Irã, Argentina, Quênia e Portugal.

Caso a pessoa fale apenas o Globish, e não o inglês, ela seria incapaz de entender 55 palavras de um total de 383 do editorial do New York Times desta semana, conforme verifiquei em um software de Globish. Segundo escreveu o jornalista da revista New Yorker Isaac Chotiner, em sua crítica sobre o livro “Globish”, de McCrum, “para muitas pessoas, o Globish não será o bastante. Elas terão que aprender inglês”.

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O jornalista Gustavo Chacra, mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia, é correspondente de “O Estado de S. Paulo” em Nova York. Já fez reportagens do Líbano, Israel, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Egito, Turquia, Omã, Emirados Árabes, Yemen e Chipre quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Participou da cobertura da Guerra de Gaza, Crise em Honduras, Crise Econômica nos EUA e na Argentina, Guerra no Líbano, Terremoto no Haiti e crescimento da Al Qaeda no Yemen. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Este blog foi vencedor do Prêmio Estado de Jornalismo em 2009, empatado com o blogueiro Ariel Palacios

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