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De Nova York a Beirute – A estratégia de marketing do Hezbollah está em xeque

gustavochacra

13 de janeiro de 2011 | 13h13

O Hezbollah diz que é uma resistência contra Israel e não pretende tomar o poder no Líbano. Para isso, criou uma estratégia que consiste em…

. Não cometer atentados suicidas dentro de Israel para evitar ser chamado de terrorista

. Não atacar os outros libaneses

. Usar argumentos como a ocupação das Fazendas de Shebaa para afirmar que Israel ainda ocupa o Líbano

. Dizer que os israelenses sobrevoam, como ontem, ilegalmente o território libanês

. Respeitar as regras políticas libanesas

Israel e os EUA acusam o Hezbollah de ser terrorista porque…

. O grupo teria seqüestrado cidadãos americanos na década de 1980

. É acusado pela Justiça argentina de ter cometido os atentados contra a AMIA e a Embaixada de Israel em Buenos Aires nos anos 1990

. Provoca os israelenses na fronteira

. Lança mísseis contra alvos civis no norte de Israel

E o Hezbollah responde afirmando que

. Não se envolveu nos seqüestros dos americanos

. A investigação da Justiça argentina é repleta de falhas

. Os israelenses que provocam na fronteira

. Usa mísseis porque Israel também os utiliza contra alvos civis no Líbano

Os libaneses que não integram ou tampouco são aliados do Hezbollah dizem que

. Entendem o Hezbollah resistir contra Israel durante a ocupação até o ano 2000, mas já chegou a hora de depor as armas

. O grupo não deve usar seu arsenal internamente

. Deve respeitar a autoridade do Estado

O Hezbollah responde afirmando que

. Israel ainda ocupa o Líbano (Shebaa) e os outros grupos libaneses são covardes

. Não usa o arsenal internamente

. Respeita a autoridade do Estado

Esta equação existe desde 2000. Ela criou uma tensa estabilidade, com todos os lados se equilibrando dentro deste sistema. Algumas vezes, desandou, como durante a Guerra de 2006 contra Israel. Em maio de 2008, quase tivemos um conflito civil, com o Hezbollah tomando as ruas sunitas de Beirute em demonstração de força

Porém tudo mudou com Tribunal Especial da ONU para o Líbano. Segundo especulações levantadas até mesmo pelo xeque Hassan Nasrallah, líder do Hezbollah, membros da organização xiita serão indiciados pela morte do ex-premiê Rafik Hariri, pai de Saad Hariri, em atentado no dia 14 de fevereiro de 2005. O Hezbollah nega envolvimento e acusa Israel.

Caso se prove o envolvimento do Hezbollah, alguns argumentos da organização serão desmentidos. Eles estarão matado um dos mais populares líderes árabes, responsável pela reconstrução de Beirute. Uma figura que nunca teve relações com Israel, apesar de próximo dos EUA.  A imagem do grupo ficará arruinada entre o seu público, que é o árabe. Eles serão comparados aos terroristas da Al Qaeda, que matam até mesmo os seus irmãos. Teremos a comprovação de que

. O Hezbollah usa as armas internamente no Líbano

. O grupo não é apenas uma resistência contra Israel

. Não respeita as regras libanesas

. Não respeita a autoridade do Estado

Desta forma, toda a estratégia de marketing com as ruas árabes estará em risco. E o Hezbollah não aceitará isso de forma alguma. O problema, para a organização, é como fazer isso sem tomar o poder no Líbano. Afinal, neste caso, também deixaria de ser visto como resistência contra Israel

A CRISE NO LÍBANO NÃO É DE CRISTÃOS CONTRA MUÇULMANOS. É DE XIITAS + CRISTÃOS X SUNITAS + CRISTÃOS

No Líbano, o premiê precisa ser, por lei, muçulmano sunita. O presidente sempre é cristão maronita, assim como o presidente do Parlamento tem que ser xiita. Metade dos deputados é cristã; a outra, muçulmana e druza. O Ministério também se divide em linhas sectárias. Os governistas são em sua maioria sunitas e algumas facções cristãs. São apoiados pelos EUA e Arábia Saudita. A oposição pró-Irã conta com xiitas e outros grupos cristãos. Os druzos pendem para o lado dos sunitas, mas evitam choques com os xiitas. O presidente, Michel Suleiman, adota uma posição neutra, um pouco mais próxima dos opositores. A Síria, outro ator político importante no Líbano, defende seus interesses de acordo com a situação.

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O jornalista Gustavo Chacra, mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia, é correspondente de “O Estado de S. Paulo” em Nova York. Já fez reportagens do Líbano, Israel, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Egito, Turquia, Omã, Emirados Árabes, Yemen e Chipre quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Participou da cobertura da Guerra de Gaza, Crise em Honduras, Crise Econômica nos EUA e na Argentina, Guerra no Líbano, Terremoto no Haiti e crescimento da Al Qaeda no Yemen e eleições em Tel Aviv, Beirute e Porto Príncipe. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Este blog foi vencedor do Prêmio Estado de Jornalismo em 2009, empatado com o blogueiro Ariel Palacios


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