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De Nova York a Beirute – Árabes não veem problemas em universidades americanas em seus países

gustavochacra

23 de julho de 2010 | 09h15

Ao falar ontem do centro islâmico em Nova York (aberto a todas as religiões, como a Associação Cristã de Moços), muitos leitores, com razão, questionaram se seria possível construir uma igreja ou uma instituição educacional americana em países de maioria muçulmanas. Usaram, muitas vezes, o exemplo do Irã e da Arábia Saudita.

Para responder, começo por Beirute, onde há mais igrejas do que mesquitas. Além disso, o a capital libanesa tem dois corações – a praça dos Mártires e a Universidade Americana de Beirute. Fundada por missionários americanos, ocupa mais de um quilômetro na orla do centro de Beirute, subindo até o boêmio bairro de Hamra. Libaneses xiitas, sunitas, druzos e cristãos estudam sem problemas nesta universidade. No passado, era obrigatório se converter ao protestantismo.

As duas outras grandes universidades libanesas são a Lebanese American University, também americana e bancada pelo premiê Saad Hariri, um sunita. A outra é Saint Jouseph, cristã e fundada por religiosos franceses, mas freqüentada por alunos de todas as religiões.

Quem conhece o Egito deve saber que o Egyptian Museum fica em uma praça chamada Midan al Tahir. Se der uma volta, descobrirá que em uma das pontas desta praça está a centenária Universidade Americana do Cairo, que também abriu um enorme campus na periferia. Como na de Beirute, o presidente sempre precisa ser dos Estados Unidos.

O Qatar foi mais longe, e decidiu importar a Georgetown, tradicional universidade de Washington. Abu Dhabi levou a NYU e a Cornell. Bahrein e Kuwait seguem pelo mesmo caminho. Mesmo a Arábia Saudita está construindo uma enorme universidade americana, mas de capital saudita, onde o regulamento interno não será igual às leis sauditas.

Portanto, está dada a resposta. Podem sim construir instituições americanas nestes países. E elas já existem. Sobre as igrejas, basta visitar Beirute, Cairo, Damasco, Belém e Ramallah. Verdade, na Arábia Saudita não pode. Mas este é um exemplo bizarro, já que os sauditas são um dos regimes mais deploráveis do mundo e os EUA são o símbolo da liberdade. O ideal era que os sauditas ficassem como os americanos, e não os americanos como sauditas.

Para terminar, os muçulmanos americanos não vieram da Arábia Saudita. A imigração saudita aos EUA é quase nula. Muitos inclusive são convertidos, outros vieram do Paquistão, da Turquia e de diversas regiões do mundo. Os árabe-americanos, como no Brasil, são majoritariamente descendentes de cristãos vindos do Líbano e da Síria, como o prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab.

obs. Muita gente não entendeu, mas o centro islâmico não será onde era o WTC. A construção ficará em uma área próxima e conta com o apoio do prefeito Michael Bloomberg.

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O jornalista Gustavo Chacra, mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia, é correspondente de “O Estado de S. Paulo” em Nova York. Já fez reportagens do Líbano, Israel, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Egito, Turquia, Omã, Emirados Árabes, Yemen e Chipre quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Participou da cobertura da Guerra de Gaza, Crise em Honduras, Crise Econômica nos EUA e na Argentina, Guerra no Líbano, Terremoto no Haiti e crescimento da Al Qaeda no Yemen. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Este blog foi vencedor do Prêmio Estado de Jornalismo em 2009, empatado com o blogueiro Ariel Palacios

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