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De Nova York a Beirute – Como o Líbano caiu no esquecimento em três semanas

gustavochacra

10 de fevereiro de 2011 | 00h48

No Twitter @gugachacra

Meu pai me escreveu de Beirute para dizer que a região de Hamra está animada e acabou de sair de um café. Também insistiu para eu enviar o telefone do motorista que o levará para Rachaya, a vila onde nasceram meus avós aos pés do monte Hermon, na tríplice fronteira entre os território libanês, sírio e israelense. Nos próximos dias, ele, minha mãe, meu irmão, dois primos e uma tia aproveitarão uns dias de férias no Líbano e na Síria.

Três semanas atrás, aqui mesmo no blog, discutíamos a possibilidade de uma guerra civil no Líbano. Eu havia alertado meus pais para esperar um pouco antes de emitir a passagem. O governo de união nacional liderado por Saad Hariri, aliado dos EUA, havia entrado em colapso. O Hezbollah e seus aliados cristãos e xiita decidiram retirar seus ministros. Eles exigiam que o então premiê rejeitasse a investigação da ONU que deve acusar a organização xiita pelo assassinato de seu pai, Rafik Hariri, há seis anos.

Um novo governo mais próximo da Síria e com o apoio da Turquia, Qatar e França foi formado sob a liderança do bilionário sunita Najib Mikati e com a presença do Hezbollah, dos cristãos seguidores de Michel Aoun e dos drusos. Hariri e seus aliados estão na oposição. O impasse sobre a ONU continua. A diferença é de que o Líbano deixou de ser notícia, como insiste em me dizer o Rodrigo Cavalheiro, pauteiro da editoria de Inter, e o Roberto Lameirinhas, meu editor. E eles têm razão. Hoje o que interessa é o Egito. Pelo menos, até a semana que vem.

A velocidade como os assuntos viram notícia e são esquecidos impressiona. Ninguém mais fala do atentado em Moscou ou da tentativa de assassinar uma deputada democrata no Arizona. Tudo isso há menos de um mês. O que Obama falou no discurso do Estado da União? A Tunísia voltou a ser ignorada como nas mais de duas décadas de ditadura de Ben Ali. E a crise libanesa, que está longe de acabar, perdeu a importância para terras além dos montes do Líbano.

Os libaneses, claro, odeiam ser esquecidos. Há até a piada de que eles queriam um ditador apenas para poder derrubar e organizar levantes mais charmosos do que os do Cairo e de Tunis – de uma certa forma, a Revolução dos Cedros de 2005 cumpriu este papel. Mas não deixa de ser irônico lembrar uma frase de Thomas Friedman, colunista do New York Times e ex-correspondente em Beirute, dizendo que nada enlouquece mais os libaneses do que deixar de ser manchete nos jornais europeus e americanos.

Mas eles podem ficar tranqüilos. Em breve, o Líbano estará na capa do New York Times, do The Independent, do Le Monde e do Estadão. Se eu perdi as férias em família desta vez, talvez vá a trabalho. Vamos ver.

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O jornalista Gustavo Chacra, mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia, é correspondente de “O Estado de S. Paulo” em Nova York. Já fez reportagens do Líbano, Israel, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Egito, Turquia, Omã, Emirados Árabes, Yemen e Chipre quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Participou da cobertura da Guerra de Gaza, Crise em Honduras, Crise Econômica nos EUA e na Argentina, Guerra no Líbano, Terremoto no Haiti e crescimento da Al Qaeda no Yemen. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Este blog foi vencedor do Prêmio Estado de Jornalismo em 2009, empatado com o blogueiro Ariel Palacios

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