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De Nova York a Beirute – A crise no Líbano e o Poderoso Chefão

gustavochacra

12 de janeiro de 2011 | 14h50

O Líbano é como o filme Poderoso Chefão. Diversas facções com interesses próprios disputam o poder, fazem alianças, eliminam os inimigos e entram em guerra. Depois do fim do conflito, se juntam e reorganizam a nova divisão de forças. Não encarem a política local como uma luta entre bons e maus.

Como já escrevi aqui diversas vezes, o Líbano é um Estado sectário. Não existe maioria religiosa. Os cristãos, sunitas e xiitas representam aproximadamente um terço da população cada. Censos não são realizados, o que inviabiliza determinar os números exatos.

Até hoje, por lei, o presidente do Líbano precisa ser cristão maronita. Isto é, se for cristão ortodoxo, está fora. O cargo de premiê fica para os sunitas. Os xiitas têm direito ao presidente do Parlamento. As divisões também existem no Ministério. Metade dos parlamentares precisa ser cristã, de todas as denominações – há um percentual de cadeiras para cada uma delas. A outra metade fica com os muçulmanos e druzos.

Hoje, a divisão política do Líbano se dá entre duas coalizões. A governista 14 de Março é composta pelos sunitas seguidores do premiê Saad Hariri e cristãos de facções mais radicais, como a de Samir Gaegea, herdeira da ideologia falangista. São apoiados pelos EUA e Arábia Saudita. Os opositores integram a 8 de Março. São os xiitas do Hezbollah, os mais moderados da AMAL e grupos cristãos populistas como o de Michel Aoun. O principal suporte vem do Irã. Os druzos de Walid Jumblat se mantém equidistantes das duas alianças. O presidente cristão Michel Suleiman também prima pela neutralidade, apesar de mais próximo do Hezbollah. A Síria defende seus próprios interesses de acordo com o contexto.

IMPORTANTE – A disputa no Líbano NÃO é entre CRISTÃOS E MUÇULMANOS. É entre cristãos+sunitas versus cristãos+xiitas. E não por questões religiosas, mas políticas

Para formar um governo, o primeiro-ministro precisa ter integrantes de todas as religiões. Assim, ele se vê obrigado a incluir opositores, pois não há xiitas em sua coalizão. Também precisa ver o poder cristão de Aoun, aliado do Hezbollah, representado no gabinete. Assim, Hariri formou um gabinete de união nacional. Os opositores possuíam o “terço” fundamental para derrubar o governo.

Tudo andava razoavelmente estável até surgir a informação de que um tribunal da ONU indiciará membros do Hezbollah pela morte do ex-premiê Rafik Hariri, pai do atual, em atentado em 2005. A organização xiita e seus aliados exigem que Saad Hariri rejeite o tribunal. O premiê é relutante. Sem acordo, os opositores deixaram governo.

Se isso ocorrer, o Líbano ficará sem administração, já que não haverá xiitas no gabinete, o que é ilegal. Além disso, o “terço” consegue derrubar o governo. Isso já aconteceu antes. Aliás, nos últimos anos, os libaneses chegaram a ficar sem premiê e sem presidente por um tempo. Tudo seguiu normalmente. O Líbano é assim mesmo, como o Poderoso Chefão. Teremos uns meses de crise política, talvez uma guerra, e, depois de um tempo, todos se sentam à mesa para dividir novamente o poder.

Obs. Esta crise estava prevista. Eu mesmo escrevi reportagem sobre o assunto em dezembro, quando estava em Beirute

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O jornalista Gustavo Chacra, mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia, é correspondente de “O Estado de S. Paulo” em Nova York. Já fez reportagens do Líbano, Israel, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Egito, Turquia, Omã, Emirados Árabes, Yemen e Chipre quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Participou da cobertura da Guerra de Gaza, Crise em Honduras, Crise Econômica nos EUA e na Argentina, Guerra no Líbano, Terremoto no Haiti e crescimento da Al Qaeda no Yemen e eleições em Tel Aviv, Beirute e Porto Príncipe. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Este blog foi vencedor do Prêmio Estado de Jornalismo em 2009, empatado com o blogueiro Ariel Palacios

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