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De Nova York a Beirute – Uma visita ao museu anti-Israel do Hezbollah

gustavochacra

16 de janeiro de 2011 | 16h08

O Hezbollah tem um museu para celebrar o que a organização considera suas vitórias contra Israel. Eu o visitei no mês passado, quando estava no Líbano. E esta reportagem foi publicada hoje, na edição impressa do Estadão. A partir de amanhã, começo a postar fotos. Construído no alto de uma montanha de onde os militantes do grupo se escondiam e preparavam operações contra os israelenses e seus aliados cristãos e xiitas durante a ocupação do sul Líbano, encerrada no ano 2000, a obra choca não apenas pelo acervo, como também pela arquitetura.

Não há nada de amador no museu do Hezbollah, que, junto com seus aliados cristãos, provocou o colapso do governo de união nacional do Líbano na semana passada. “Nós vamos construir um teleférico, um hotel e até um campo de paintball para as pessoas terem a sensação de como é lutar contra os israelenses”, diz o guia. Mesmo sem estes anexos, o museu já pode ser considerado um dos símbolos do poderio do Hezbollah, uma espécie de Estado dentro do Estado no Líbano.

Na chegada, os turistas são levados para um cinema com cerca de 300 lugares, onde exibem um filme da história da organização narrado pelo próprio xeque Hassan Nasrallah. Há turistas do Golfo, como sauditas, e também iranianos. Alguns libaneses e até mesmo um casal formado por um jovem argentino e uma francesa. “Soube por pessoas em Beirute sobre o museu e quis visitar”, disse Nicolas, de Bahía Blanca, que está viajando pela África e o Oriente Médio.

Nasrallah relata no vídeo como o grupo surgiu, as primeiras operações nos anos 1980 e nos 1990. Cenas mostram veículos militares israelenses explodindo, soldados chorando e alguns mortos. O ápice se dá no momento em que são exibidas imagens dos libaneses do sul celebrando a retirada israelense no ano 2000. E, em tom de ameaça, o líder do Hezbollah diz – “Se vocês bombardearem o aeroporto Rafik Hariri, nós bombardearemos o aeroporto Ben Gurion. Se vocês atacarem nossos portos, nós atacaremos os seus portos”.

Uma espécie de caracol que lembra em parte o vão central do Museu Guggenheim de Nova York, só que ao ar livre, é o ponto alto da gigantesca obra. As pessoas circulam ao redor de armas israelenses, além de restos de mantimentos. Um tanque Merkava, com o seu cano entortado como ironia, fica no centro. Há inscrições da sigla em hebraico da IDF (Forças de Defesa de Israel) como se fossem ruínas. Restos de bombas, de mísseis e peças de artilharia também são exibidos, assim como capacetes de soldados israelenses que teriam sido mortos. Há dezenas de jipes, tanques e blindados de Israel que foram destruídos.

Um telhado de vidro quebrado serve para mostrar que Israel não seria tão seguro. Há um cartaz dizendo que “Israel não é invencível”. Saindo do caracol, os visitantes entram nas trincheiras do Hezbollah. Os armamentos do grupo, como mísseis Katyusha, são expostos como se estivessem prontos para ser utilizados. Outros são pequenos, do tamanho de uma mala. Fica claro não ser difícil para os membros do grupo esconderem estes armamentos durante uma guerra, como em 2006, e disparar de qualquer lugar.

Um salão interno exibe uma série de informações sobre Israel. Há fotos com dizeres que indicam que os israelenses seriam covardes e medrosos, cartazes com todas as divisões do Exército israelense, enlatados de atum com embalagem em hebraico, vestimentas das forças especiais, imagens de uma série de alvos militares dentro de Israel e frases de líderes israelenses indicando que o Hezbollah seria vitorioso. Yitzhac Shamir teria dito que “o Hezbollah provou que existem outros árabes”, mais difíceis de ser derrotados do que os Exércitos do Egito, Jordânia e Síria. “Israel não estava preparado” para lutar contra o Hezbollah, é a frase sob a imagem de Shimon Peres.

Além do museu, o Hezbollah, com ajuda do Irã, construiu um parque exatamente na fronteira com Israel. Há uma réplica em tamanho reduzido da mesquita de Al Aqsa. Churrasqueiras, balanços para as crianças e torres com lunetas para observar Israel. A entrada é gratuita. No dia que visitei o local, não havia nenhum turista. Literalmente, estava vazio.

Nas ruas das vilas do sul do Líbano e também de Dahieh, em Beirute, há lojas que vendem souvinires da organização. Uma bandeira custa cerca de US$ 5; o chaveiro, US$ 1. Há cartazes de Nasrallah e também de Khomeini, assim como camisetas da organização e outras do Líbano.

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O jornalista Gustavo Chacra, mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia, é correspondente de “O Estado de S. Paulo” em Nova York. Já fez reportagens do Líbano, Israel, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Egito, Turquia, Omã, Emirados Árabes, Yemen e Chipre quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Participou da cobertura da Guerra de Gaza, Crise em Honduras, Crise Econômica nos EUA e na Argentina, Guerra no Líbano, Terremoto no Haiti e crescimento da Al Qaeda no Yemen e eleições em Tel Aviv, Beirute e Porto Príncipe. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Este blog foi vencedor do Prêmio Estado de Jornalismo em 2009, empatado com o blogueiro Ariel Palacios

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