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De Nova York a Brasília – Ao negociar punição a Kadafi, EUA irritam Brasil no CS da ONU

gustavochacra

28 de fevereiro de 2011 | 10h02

No Twitter @gugachacra

Barack Obama visitará o Brasil no próximo mês e as relações entre os dois países não podem ser consideradas ruins. Mas dificilmente o presidente dos EUA apoiará a inclusão dos brasileiros como membros permanentes do Conselho de Segurança das Nações Unidas como fez no ano passado com os indianos.

Depois de o Brasil se posicionar contra as sanções ao Irã em junho de 2010, uma nova disputa ocorreu neste sábado durante as negociações sobre uma resolução contra Muamar Kadafi integrantes de seu regime. Ao votar a favor do texto, na noite de sábado, o Brasil criticou indiretamente os Estados Unidos. O problema, recorrente nas relações entre americanos e brasileiros, era referente ao Tribunal Penal Internacional (TPI).

Em uma das principais divergências para aprovar a resolução, a administração de Barack Obama exigiu a inclusão de um parágrafo em que garantia isenção de cidadãos de países não signatários do Tratado de Roma da jurisdição do TPI. Os EUA temem que autoridades do país sejam processadas pelo tribunal por suas participações nas guerras no Iraque e no Afeganistão. Além dos americanos, dois outros membros permanentes do CS não são signatários do Tratado de Roma – Rússia e China. Mas russos e chineses não faziam questão da inclusão do parágrafo. A Líbia tampouco faz parte do TPI.

Considerando a posição de Washington hipócrita, os brasileiros ameaçaram votar contra e apenas apoiaram o texto devido à urgência da questão líbia e o papel do país como presidente CS.

No meio tempo, os americanos vazaram para a imprensa a informação de que os brasileiros estariam sabotando um acordo, junto com Portugal. A notícia foi difundida por órgãos de imprensa internacionais. Eu estava na sede do conselho, assim como meus concorrentes da Folha (Álvaro Fagundes) e do Globo (Fernanda Godoy). E o porta-voz português, assim como um diplomata brasileiro envolvido nas negociações, negavam a informação difundida pelas agências de notícias.

A postura americana irritou a diplomacia brasileira que fez questão de deixar clara a insatisfação em uma ressalva na explicação do voto na noite de sábado no Conselho de Segurança da ONU. “Nós expressamos nossa forte reserva ao Parágrafo 6 (o que exigia a isenção). Reiteramos nossa convicção de que iniciativas que busquem estabelecer isenções da jurisdição do TPI sobre certas categorias de indivíduos não contribuem para fazer avançar a causa da justiça e da responsabilidade e não contribuirão para o fortalecimento do tribunal”, disse a embaixadora do Brasil junto às Nações Unidas, Maria Luiza Viotti, ao explicar o voto brasileiro.

A embaixadora dos EUA, Susan Rice, na explicação do voto, não disse os motivos que levaram à inclusão do parágrafo que garante a isenção de cidadãos de países não signatários do Tratado de Roma, que reconhece a jurisdição do TPI. Mas, segundo o Estado apurou, os americanos ameaçaram vetar o texto se não fosse colocado o anexo, utilizado no passado em sanções contra o Sudão e seu líder Omar Bashir envolvendo o TPI.

A ONU teve que esperar o líder chinês acordar

As delegações de todos os países do CS das Nações Unidas acordaram cedo no sábado para discutir uma resolução contra Muamar Kadafi e membros de seu regime. Depois de sete horas de negociação, chegaram a um acordo. Eram 16h em Nova York. Jornalistas e diplomatas estavam com fome em uma ONU com a lanchonete fechada. Erta complicado sair e voltar. A ONU está em reforma e é preciso cruzar a garagens e uma série de portas em que o crachá dos jornalistas não funciona. O processo levava mais de meia-hora. Todos queriam aproveitar o fim de semana. E ficaram empolgados porque ainda pegariam o por do sol depois da votação que puniria o líder líbio.

Isso, claro, se não tivessem que esperar o sol nascer no outro lado do mundo, em Pequim. A delegação chinesa pediu para que todos os países esperassem até o líder chinês, Hu Jintao, dar o aval para acordo, segundo disseram ao Estado diplomatas franceses e brasileiros. Mas ele estava dormindo, já que era madrugada no oriente. Apenas depois do contato por telefone, quando o homem forte da China havia acordado, os chineses afirmaram que o voto poderia ser levado para plenário. Quando o embaixador chinês levantou a mão dizendo “sim” a favor das sanções, os jornalistas (e diplomatas) celebraram. Era 21h e finalmente todos podiam encerrar os trabalhos e aproveitar o que restava do sábado.

Leiam os blogs do Ariel Palacios, da Adriana Carranca, da Claudia Trevisan, do Marcos Guterman e o Radar Global, sob o comando do Luiz Ratz. E façam pressão para que a Denise Chrispim, correspondente em Washington, comece o dela

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O jornalista Gustavo Chacra, mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia, é correspondente de “O Estado de S. Paulo” em Nova York. Já fez reportagens do Líbano, Israel, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Egito, Turquia, Omã, Emirados Árabes, Yemen e Chipre quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Participou da cobertura da Guerra de Gaza, Crise em Honduras, Crise Econômica nos EUA e na Argentina, Guerra no Líbano, Terremoto no Haiti e crescimento da Al Qaeda no Yemen. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Este blog foi vencedor do Prêmio Estado de Jornalismo em 2009, empatado com o blogueiro Ariel Palacios

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