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De Nova York a Damasco – Assad e suas eternas promessas de reformas que nunca acontecem

gustavochacra

30 de março de 2011 | 08h26

no twitter @gugachacra

Bashar al Assad discursou agora para o Parlamento sírio. Foi uma decepção total. Não levantou o estado de emergência, estabelecido em 1963, com o argumento de que era necessário devido ao conflito com Israel. Falou genericamente em reformas e em teorias da conspiração para explicar os levantes contra o seu regime. O ponto alto do discurso foram as intervenções de deputados para puxar o saco. Nada de histórico, como diziam autoridades ontem.

A estratégia foi não mostrar o presidente fraco, levando em conta o que ocorreu no Egito e na Tunísia. Talvez as concessões sejam feitas através do novo governo, que será instalado nos próximos dias. No Twitter e no Facebook, os opositores prometem continuar com os protestos que, por enquanto, reuniram menos pessoas do que as manifestações a favor de Assad.

Na época do estabelecimento do estado de emergência, as colinas do Golã ainda não haviam sido ocupadas, Bashar al Assad não tinha nascido, seu pai, Hafez, ainda estava distante do poder e as Guerras do Seis Dias e do Yom Kippur, contra os israelenses, aconteceriam apenas anos depois.

Nestas quase cinco décadas, os sírios têm vivido em uma espécie de AI-5. O regime pode prender quem quiser sem ordem judicial, proibir manifestações, censurar a imprensa e restringir partidos políticos. Milhares de pessoas, segundo a Anistia Internacional, foram torturadas e mesmo mortas ao longo destes anos. O caso mais célebre foi a repressão contra opositores radicais islâmicos na cidade de Hama, em 1982, quando, segundo estimativas independentes, as tropas síria mataram cerca de 20 mil pessoas.

A regra em Damasco, Aleppo e outras cidades sírias é viver sem se intrometer em questões políticas. Muitos comerciantes, mesmo sem simpatizarem com os Assad, colocam fotos deles em suas lojas e restaurantes para evitar que a polícia os importune. O mesmo se aplica a motoristas de táxi. Inicialmente, o próprio Assad, ao assumir o poder em 2000 depois da morte do seu pai, tentou evitar este culto à personalidade, mas voltou atrás. Na capital síria, ainda é difícil encontrar alguns jornais libaneses que criticam Assad. Há restrições ao uso de alguns sites, mas qualquer adolescente sírio sabe como burlar o bloqueio.

No começo de seu mandato, o líder sírio chegou a introduzir reformas econômicas e políticas. Mas as segundas acabaram não avançando devido a uma suposta pressão da velha guarda. Em 2005, o governo havia prometido levantar o estado de emergência, mas nunca implementou a decisão. Alguns céticos dizem que não será diferente agora.

Quando eu o entrevistei no ano passado, perguntei sobre as reformas.

Blog – Sua administração trouxe avanços na economia.  Por outro lado, seus críticos dizem que a abertura política foi interrompida.  O sr. pretende reiniciar a abertura?  Por que é tão difícil?

Assad – Nós não começamos algo e depois paramos.  Desde o começo, quando começamos a reforma, houve diferentes avaliações sobre a velocidade.  Alguns dirão que foi muito rápida.  Outros, que foi lenta.  Na verdade, nós não interrompemos.  Mas abrimos a uma base metódica.  Não fazemos as coisas porque somos entusiasmados como pessoas fanáticas ou românticas.  Nós sabemos o que estamos fazendo.  Começamos a reforma da economia em 2000, mas apenas sentimos a abertura em 2007, 2008.  Demoraram sete, oito anos porque foi necessária uma reforma legislativa e o diálogo.  Não pode haver reforma sem diálogo.  E como começamos o diálogo?  Abrimos a mídia primeiro.  Depois a internet.  Quando assumi (em 2000), havia 30 mil usuários na Síria.  Hoje, são 3 milhões e somos o país árabe que registra mais crescimento na área.  Temos imprensa privada.  Ha diferentes jornais, revistas, canais de TV.  Portanto, estamos nos movendo.  Se você me perguntar se é rápido, eu diria que não é rápido, mas é difícil medir a velocidade.  Diria que vamos o mais rápido possível com a menor quantidade de efeitos colaterais.

Aparentemente, ele continua lento demais

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O jornalista Gustavo Chacra, mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia, é correspondente de “O Estado de S. Paulo” em Nova York. Já fez reportagens do Líbano, Israel, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Egito, Turquia, Omã, Emirados Árabes, Yemen e Chipre quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Participou da cobertura da Guerra de Gaza, Crise em Honduras, Crise Econômica nos EUA e na Argentina, Guerra no Líbano, Terremoto no Haiti e crescimento da Al Qaeda no Yemen. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Este blog foi vencedor do Prêmio Estado de Jornalismo em 2009, empatado com o blogueiro Ariel Palacios

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