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De Nova York a Damasco – Futuro de Assad divide Síria

gustavochacra

27 de março de 2011 | 11h26

No twitter @gugachacra

A Síria não era tão diferente do Egito, da Tunísia e da Líbia como diziam analistas, governos estrangeiros e até mesmo Bashar al Assad. Antes imune a protestos, o líder sírio viu manifestações de opositores se expandirem de Daara, na fronteira com a Jordânia, para outras cidades do país, ainda que em menor intensidade. De Washington a Beirute, as discussões são se o regime conseguirá sobreviver, como no Marrocos, ou se naufragará, como o do Cairo.

Apesar de ainda apostarem na manutenção de Bashar no poder, alguns especialistas em Oriente Médio já elaboram cenários sobre a Síria sem um Assad no comando de Damasco em mais de quatro décadas. Com uma população dividida em linhas étnicas e sectárias e situada em uma das vizinhanças mais instáveis no planeta, entre Israel, Líbano e Iraque, a tendência é de que esta nação, com a queda do regime, caminhe para um conflito civil.

De um lado, relatos de opositores falam de dezenas de milhares de pessoas nas ruas. Outros, mais simpáticos ao governo, indicam que os atos a favor de Bashar são bem superiores e as figuras citadas pelas oposição, exageradas. A agência de notícias estatal Sana divulgava ontem em manchete que “atos gigantescos a favor de Bashar demonstravam a importância da unidade nacional diante da campanha estrangeira que ameaça a Síria”, usando a tática de acusar um inimigo externo pela instabilidade.

Relato de brasileira – Uma brasileira que vive e estuda árabe em Damasco descreveu ao Estado o cenário ontem. “A cidade estava em euforia, com carreatas, buzinas por todos os lados e bandeiras da Síria. Vi uma do Hezbollah também. Alguns carregavam fotos do Assad pai (Hafez al Assad, morto em 2000) e filho (Bashar). Jovens, velhos, crianças e homens participavam. Gritavam ‘deus, Síria, Bashar’. A praça dos Omíadas (uma das principais da capital) estava completamente tomada por gente carregando bandeiras”, afirmou.

Para Assad, protestos são bem menores do que no Egito  – Em Allepo, segunda maior cidade do país, estrangeiros também descreveram atos a favor de Assad bem superiores aos de opositores. Avi Issacharoff, analista do diário israelense Haaretz, resumiu a incerteza do que se passa na Síria em artigo publicado no sábado. “É difícil estimar a dimensão dos atos contra o governo que ocorreram na sexta. Relatos vindos da Síria são truncados e o número de vítimas assim como o de participantes nestes eventos não estão claros. O certo é que em cidades como Damasco, Aleppo, Latakia e Homs não havia dezenas de milhares de pessoas como em Benghazi, Cairo e Tunis nos primeiros dias de protestos. Apenas algumas centenas de pessoas participaram dos protestos (anteontem, capital e principais cidades)” contra Assad, afirmou.

Ainda assim, qualquer forma de manifestação na Síria é inédita. Com um dos aparatos mais repressivos do mundo árabe e um estado de emergência em vigor há 40 anos, era praticamente impossível protestarem contra o regime. Até agora, o centro das ações contra Assad estão em Deiraa., onde milhares de pessoas foram às ruas nas últimas semanas. Dezenas de pessoas foram mortas pelo regime. O regime de Damasco argumenta que as mortes foram casos isolados e erros.  Analistas lembram que Deiraa se difere das demais cidades da Síria por ser controlada por famílias sunitas tradicionalmente hostis ao regime de Assad.

Eurasia vê poucos riscos ao regime – “Os protestos na Síria são geograficamente limitados a Deiraa e não oferecem sério risco ao regime. Muitos sírios nos principais centros populacionais não se opõem a Assad e ele ainda conta com o apoio da elite”, afirmou Ayham Kamel, da consultoria de risco político Eurasia. Caso as reformas anunciadas na quinta-feira não sejam suficientes para acalmar a população, “a tendência deve ser o uso da força”, acrescenta. Ontem o regime libertou 200 presos políticos, em mais uma tentativa de acalmar os opositores.

Reformas conseguirão conter protestos? – “A questão é se a oferta de concessões preventivas, como foi feito pelo sultão de Omã, o rei da Jordânia e o do Marrocos será suficiente para conter os protestos, ou se a fúria diante das mortes em Deraa servirão de estopim para mais levantes”, escreveu Michael Collins, diretor do Instituto de Oriente Médio em Washington, em seu blog.

Segundo o International Crisis Group “há duas opções para Assad. Uma delas envolve uma imediata e arriscada iniciativa política que talvez convença o povo sírio de que o regime está disposto a mudanças dramáticas. A outra envolve uma escalada da repressão, que tem toda a chance de levar para mais violência”.

Sobrevivente – Em outras três vezes em que viu seu regime ameaçado, Assad conseguiu dar a voltar por cima e se fortalecer. De jovem médico, considerado amador, conseguiu demonstrar uma enorme habilidade política para superar as adversidades. Na primeira delas, pouco depois de assumir o poder em 2000, bateu de frente com a velha guarda de seu próprio regime, que tentou derrubá-lo. Quando Saddam Hussein foi deposto no Iraque, muitos disseram que Bashar seria o próximo. Por último, em 2005, analistas diziam que seu poder havia enfraquecido diante da retirada das tropas sírias do Líbano em meio a acusações de que seu governo estaria por trás da morte do ex-premiê Rafik Hariri. Mas ele hoje volta a dar as cartas em Beirute, com um governo aliado ao seu regime.

No início dos levantes no mundo árabe, analistas diziam que a Síria estaria imune aos protestos por três motivos. Primeiro, a posição anti-Israel do país, que estaria em sintonia com a maior parte da população. Hosni Mubarak, do Egito, era o principal aliado dos israelenses no Oriente Médio. Em segundo lugar, mais de um milhão de refugiados iraquianos vivem em Aleppo e Damasco e costumam dizer que o processo de democratização pode levar ao caos, como em Bagdá. Os embates civis no vizinho Líbano também servem de argumento para alguns sírios dizerem ser melhor a estabilidade de um regime autoritário do que a incerteza de uma democracia.

Divisões sectárias – “A Síria possui muitos dos mesmos problemas do Líbano e do Iraque. Embora a maioria dos sírios ser árabe (90%), há importantes minorias étnicas, como a curda. Também há divisões sectárias. Os Assad são alauítas, que representam 12% dos 22,5 milhões de sírios. Os cristãos são 10%, enquanto os sunitas representam 74%”, diz em análise Steven Cook, do Council on Foreign Relations. Com um regime secular, Assad, historicamente, mantém uma aliança com a elite sunita de Damasco e Aleppo.

obs. Reportagem minha publicada na edição impressa de O Estado de S. Paulo

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O jornalista Gustavo Chacra, mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia, é correspondente de “O Estado de S. Paulo” em Nova York. Já fez reportagens do Líbano, Israel, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Egito, Turquia, Omã, Emirados Árabes, Yemen e Chipre quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Participou da cobertura da Guerra de Gaza, Crise em Honduras, Crise Econômica nos EUA e na Argentina, Guerra no Líbano, Terremoto no Haiti e crescimento da Al Qaeda no Yemen. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Este blog foi vencedor do Prêmio Estado de Jornalismo em 2009, empatado com o blogueiro Ariel Palacios

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