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De Nova York a Damasco – Manual para entender a crise da Síria

gustavochacra

31 Março 2011 | 17h59

no twitter @gugachacra

1 – Por que a Síria é tão importante para a região?

Resposta – A Síria exerce influência no Iraque, territórios palestinos e Líbano. Em conflito com Israel, os sírios apóiam grupos hostis aos israelenses, como o Hamas, na Faixa de Gaza. Damasco considera o Líbano sua zona de influência, aliando-se a diferentes grupos ao longo da história. Hoje está ligada ao governo nomeado de Najib Mikati, apoiando também o Hezbollah e facções cristãs. Em Bagdá, se posiciona do mesmo lado dos americanos e sauditas, defendendo um governo que inclua sunitas, xiitas e curdos. No ano passado, Assad voltou a se aproximar da Arábia Saudita, irritando o Irã, que ainda é o seu principal aliado no Oriente Médio

2 – Por que mantém o estado de emergência há 48 anos?

Resposta – Oficialmente, a Síria mantém o estado de emergência devido ao conflito contra os israelenses. Mas, ao longo destas quase cinco décadas, esta lei tem sido usada para reprimir a oposição doméstica

Raio-X da Síria
 
População – 22,5 milhões
Regime – República
Composição étnica – 90,3% árabe, 9,7% outras minorias (curda e armênia)
Composição religiosa – 74% muçulmana sunita, 12% muçulmana alauíta (religião de Bashar al Assad), 4% xiitas e druzos e10% cristã
Principais destinos das exportações – Iraque (30,22%), Líbano (12,21%) e Alemanha (8,89%)
Principais origens das importações – Arábia Saudita (10,1%), China (9,95%) e Turquia (6,97%)
 
Questões geopolíticas
Colinas do Golã – Este território sírio foi ocupado por Israel na Guerra dos Seis Dias, em 1967, e anexada nos anos 1980, em ato não reconhecido pela ONU. Os negociações para a devolução da área fracassaram duas vezes
Líbano – Historicamente, a Síria considera o Líbano sua zona de influência, chegando a ocupar o país por quase 30 anos, até 2005
Relações com o Irã – O regime iraniano é hoje o principal aliado da Síria na região. Os dois países apóiam o Hamas e o Hezbollah
Relações com os EUA – Os americanos impuseram sanções unilaterais em 2004, mas começaram a se aproximar de Assad no último ano
 
3 – Quais são as classes e religiões subrepresentadas?

Resposta – Assad, apesar de secular, é alauíta, uma corrente minoritária do islamismo e também na Síria. Esta facção possui um poder bem superior à sua participação na população total. Para manter um equilíbrio, o líder sírio protege os negócios da elite sunita em Damasco e Aleppo, evitando divisões sectárias – sua mulher, criada em Londres, mas filha de sírios, também é sunita. Ele conta ainda com o apoio dos cristãos. Os curdos têm a sua identidade reprimida, com uma série de direitos restringidos. Os cerca de um milhão de refugiados iraquianos e palestinos possuem direito à saúde, educação e trabalho (menos no setor público), mas não cidadania. Os armênios são cidadãos comuns

4 – Por que Assad tem tanto apoio na capital e pouco na capita”

Reposta – Primeiro, na capital Assad conta com o apoio do funcionalismo público. Na semana passada, ele anunciou um aumento de salário para eles. Em segundo lugar, o líder sírio facilita os negócios da elite sunita. Já em Daara, centro das manifestações opositoras, os habitantes enfrentam mais dificuldades na hora de comprar e vender terras por ser uma região fronteiriça. Além disso, as famílias locais sempre foram hostis a Assad

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O jornalista Gustavo Chacra, mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia, é correspondente de “O Estado de S. Paulo” em Nova York. Já fez reportagens do Líbano, Israel, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Egito, Turquia, Omã, Emirados Árabes, Yemen e Chipre quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Participou da cobertura da Guerra de Gaza, Crise em Honduras, Crise Econômica nos EUA e na Argentina, Guerra no Líbano, Terremoto no Haiti e crescimento da Al Qaeda no Yemen. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Este blog foi vencedor do Prêmio Estado de Jornalismo em 2009, empatado com o blogueiro Ariel Palacios