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De Nova York a Damasco – O depoimento de uma estrangeira que vive em Damasco (Primeira Parte)

gustavochacra

28 de março de 2011 | 13h13

no twitter @gugachacra

Hoje publicarei a primeira parte de um depoimento de uma amiga de Nova York que está em Damasco estudando árabe. Não vou divulgar o nomes por questões de segurança. Vale muito a pena ler. Amanhã, a segunda parte. Separei em duas para não ficar muito longo no blog

“Um dia acordei com a ligação de um amigo, que dizia eufórico “hoje vai ter festa!”. Eu entendi na hora que festa seria essa: era a vez dos sírios irem às ruas.

A síria vive sob estado de emergência desde 1963, que mantém fortes o exército e o serviço de inteligência, controla a imprensa e reprime dissidentes. O atual presidente, Bashar al-assad, do partido Baath, está no poder desde 2000,  quando morreu o então presidente, Hafez al-Assad, seu pai.

Eu sabia onde estava me metendo quando decidi vir à síria. eu sabia que era só não falar sobre o governo que tudo estaria bem. Desde que cheguei, foram poucas as vezes que conversei sobre política. As pessoas têm medo de falar e se sentem incomodadas se perguntamos algo. Quando em espaços públicos, seja caminhando pela rua ou em cafés, as conversas são sempre sussurradas e em códigos. Os olhos sempre varrendo o entorno, procurando sobre os ombros quem esteja prestando atenção ao que se diz. Os mukhabarat (oficiais da inteligência) estão por toda parte, à paisana. É fácil identificá-los na rua: são homens de jaqueta preta, parados nas esquinas, ou andando devagar, de um lado para o outro, fumando um cigarro. às vezes nos seguem por um par de esquinas, pensando ser invisíveis.

Quando em espaços privados, entre gente de confiança, elas se soltavam. “não há liberdade”, diziam algumas. às vezes se falava em corrupção, às vezes em salários baixos, poucas vezes em pobreza (notem que as pessoas com quem falo vêm de uma elite educada de damasco). O tom era de frustração, e em alguns casos, de raiva. Eram pessoas que haviam viajado, estudado, ou morado no exterior.

A maioria dizia querer ir embora daqui, para onde tivessem mais oportunidades de crescer profissionalmente, para onde pudessem ler e falar sobre o que quisessem, onde não convivessem mais com a frustração eterna de cada dia. Mas também havia aquelas pessoas que diziam que tudo estava bem. “Liberdade? Ah, não me faz falta. Corrupção e  pobreza? Ah, isso está em toda parte, e a síria não vai tão mal assim”. Tudo se justificava pela segurança interna (se orgulham de suas baixíssimas taxas de criminalidade) e externa (afinal, a Síria e Israel nunca chegaram a um acordo de paz).

Alguns também apontavam para o fato de bashar al-assad ser ‘alauíta (minoria muçulmana xiita, vista como mais progressista por incorporar elementos de outras religiões, incluindo o cristianismo e do zoroastrismo), o que permitia uma convivência religiosa relativamente pacífica das minorias muçulmanas xiitas e cristãs com a maioria sunita. essas eram pessoas que de alguma forma lograram sucesso em suas carreiras, e preferiam que as coisas ficassem como estavam.

Mas eis que a Tunísia e o Egito trouxeram uma brisa de esperança. Acompanhar o Egito foi particularmente emocionante, por estar tão perto. Compartilhei a angústia de amigos que não conseguiam entrar em contato com seus amigos egípcios e temiam por sua segurança.

Escutei relatos reais de amigos de amigos que contavam o que estavam vivendo acampados na praça Tahrir, ou organizando-se em grupos para guardar as comunidades quando a polícia os abandonou, ou protegendo os museus contra saques ou depredação. O discurso de Hosni Mubarak, aquele que todos esperavam ser sua renúncia mas que terminou sendo sua maior demonstração de arrogância, assisti ao vivo com amigos. Foram os semblantes de seus rostos, passando do entusiasmo à decepção, que me traduziram as palavras em árabe que ainda não entendia. e quando o ditador finalmente caiu, o orgulho e a euforia eram tão contagiantes que era impossível não emocionar-se com eles, como se fosse uma dos seus.

Desde então começou a inquietação. a janela de oportunidade se abriu. “é agora ou nunca”, diziam. Mas não sabiam muito bem o que fazer, como fazer. ainda tinham medo. Se sentiam sozinhas, e sabiam que sozinhas seriam facilmente contidas. Não sabiam onde encontrar quem pensasse como elas. não sabiam em quem confiar. não sabiam muito bem como se organizar.”

no próximo post, a segunda parte do depoimento

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O jornalista Gustavo Chacra, mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia, é correspondente de “O Estado de S. Paulo” em Nova York. Já fez reportagens do Líbano, Israel, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Egito, Turquia, Omã, Emirados Árabes, Yemen e Chipre quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Participou da cobertura da Guerra de Gaza, Crise em Honduras, Crise Econômica nos EUA e na Argentina, Guerra no Líbano, Terremoto no Haiti e crescimento da Al Qaeda no Yemen. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Este blog foi vencedor do Prêmio Estado de Jornalismo em 2009, empatado com o blogueiro Ariel Palacios


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