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De Nova York a Grozny – Separatismo tchetcheno lembra o kosovar, mas se difere do palestino

gustavochacra

31 de março de 2010 | 08h24

A Rússia perdeu grande parte do território com o colapso da União Soviética. Moscou teve que aceitar que antigas repúblicas integrantes do bloco conquistassem a independência. Este foi o caso, entre outros, da Armênia, Azerbaijão, Cazaquistão, Geórgia, Ucrânia e dos países bálticos. Já em relação à Tchetchênia, de onde supostamente teriam saído as suicidas do atentado em Moscou nesta semana, foi diferente.

A região tchetchena fazia parte do Império Russo desde o século 19,  antes da formação da União Soviética. As forças do czar derrotaram a resistência do Imã Shamil em 1859, incorporando a área à Rússia.  A Tchetchênia, depois da Revolução Bolchevique, não era uma república soviética, mas uma república da federação russa dentro da União Soviética. E, na visão de Moscou, parte integrante e inseparável de seu território mesmo depois do colapso do socialismo. O problema é que os habitantes desta área são etnicamente diferentes do restante da Rússia, além de seguirem o islamismo, enquanto Moscou é majoritariamente cristão-ortodoxo.

Desde o fim da União Soviética, a Tchetchênia começou a se levantar para conquistar a independência. Em resposta, o Exército de Moscou reprimiu os separatistas, provocando milhares de mortes. A rede terrorista Al Qaeda e outras organizações radicais islâmicas se aproveitaram do conflito e começaram a treinar militantes locais e a expandir a luta para áreas vizinhas, como o Daguestão e a Ingushetia. Os seguidores de Osama Bin Laden, desde a invasão soviética do Afeganistão, nos anos 1980, consideram os russos inimigos. Atualmente, muitos veteranos da Guerra da Tchetchênia, nos anos 1990, podem ser encontrados lutando pela Al Qaeda em países como o Iraque e o Iêmen.

A situação da Tchetchênia para a Rússia equivale à de Kosovo para a Sérvia. Os sérvios, apesar de resistirem, acataram a independência da Eslovênia, Croácia, Macedônia e Montenegro, que eram repúblicas iugoslavas, mas não sérvias. Já Kosovo era uma Província da Sérvia e, segundo Belgrado, parte integrante de seu território, apesar de etnicamente e religiosamente distinta – os kosovares são albaneses e muçulmanos; os sérvios são eslavos e cristãos ortodoxos. O caso da Bósnia é diferente, já que, apesar de ser uma república iugoslava, possuía elevado percentual de população sérvia.

Apesar de serem separatistas, desfrutam da cidadania russa. Isto é, podem não ter um Estado. Mas possuem a nacionalidade. O mesmo vale para os tibetanos em relação à China, os bascos na Espanha e os curdos na Turquia. Os únicos que não tem cidadania e nem Estado são os palestinos. Vale lembrar que a Al Qaeda sempre valorizou mais a questão tchetchena do que a palestina. Os seguidores de Bin laden jamais atacaram Israel,  mas sempre agiram contra Moscou. Tampouco existem palestinos conhecidos na rede terrorista, enquanto há dezenas de tchetchenos espalhados pelo Afeganistão, Iraque, Yemen e Somália.

O jornalista Gustavo Chacra, mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia, é correspondente de “O Estado de S. Paulo” em Nova York. Já fez reportagens do Líbano, Israel, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Egito, Turquia, Omã, Emirados Árabes, Yemen e Chipre quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Participou da cobertura da Guerra de Gaza, Crise em Honduras, Crise Econômica nos EUA e na Argentina, Guerra no Líbano, Terremoto no Haiti e crescimento da Al Qaeda no Yemen. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Este blog foi vencedor do Prêmio Estado de Jornalismo em 2009

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