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De Nova York a Jerusalém – A prisão de Anat Kam e a censura na imprensa de Israel

gustavochacra

11 de abril de 2010 | 10h58

A israelense Anat Kam, de 23 anos, está sob prisão domiciliar em Israel por ter fornecido documentos secretos a um repórter do Haaretz em 2008. Estes relatos demonstram que autoridades militares de Israel autorizaram o assassinato de militantes palestinos quando havia condições de prendê-los sem risco aos soldados envolvidos na operação. A prisão provocou indignação em Israel, já que a jovem, que realizava, na época, seu serviço militar obrigatório, apenas buscou mostrar erros de seu país. Seria como um funcionário de gabinete de um senador brasileiro ver provas do mensalão e as repassá-las para um repórter do Estado ou da Folha. E, tempos depois, ser preso por espionagem.

Verdade, há o argumento de que ela colocou a segurança de Israel em risco, o que não se aplicaria ao caso do mensalão, por exemplo. Porém não consigo entender qual o perigo destas informações, a não ser relatar para os israelenses que seu Exército, como em quase todos os lugares do mundo, comete excessos. Seria diferente se ela houvesse revelado os planos para um ataque ao Irã, mas não foi o caso. Anat somente quis mostrar que certas figuras das Forças Armadas de Israel decidiram matar outros seres humanos sem julgamento prévio, como o capitão Nascimento da Tropa de Elite.

Israel tem separação de poderes, eleições livres e uma imprensa diversa e vibrante. A Suprema Corte muitas vezes obriga o premiê voltar atrás em decisões polêmicas. Não há acusações de fraude nas votações do país e todas as forças políticas são representadas no Parlamento, apesar de árabes cristãos e muçulmanos raramente serem convidados para integrar o governo. O Haaretz é certamente um dos melhores jornais do mundo e responsável pelas mais importantes reportagens sobre a ocupação ilegal israelense dos territórios palestinos e sírio. O Jerusalem Post, de uma linha mais conservadora e pouco lido em Israel, também pode ser usado como uma excelente fonte de informações sobre o Oriente Médio em inglês. O Yediot e  o Maariv são outros que desenvolvem jornalismo de primeira linha.

Apesar disso, existe uma censura militar em Israel. Durante a Guerra de Gaza, recebi a recomendação de enviar meus textos para um censor militar para a verificação de que não havia trechos do texto com informações que colocassem em risco a segurança de Israel – coisa que nunca fiz, já que não dão muita importância a jornalistas brasileiros. O episódio do Haaretz, no entanto, mostra que a censura pode ir bem mais longe. Ao longo da semana passada, os diários israelenses sequer podiam publicar a história de Anat Kam. Os Repórteres Sem Fronteira consideraram “absurda a proibição na circulação da história” da jovem detida. Quase toda a imprensa israelense também condenou a decisão de prendê-la e de proibir os israelenses de acompanharem a história. Obviamente, de Tel Aviv a Eilat, todos os israelenses seguiam a história pela imprensa internacional.

Apesar disso, não há como comparar com  a ultra controlada imprensa da Síria, Egito, Jordânia e Arábia Saudita – no Líbano e nos territórios palestinos, a imprensa não sofre censura.

obs. Obrigado aos leitores de Israel  (eles sabem quem são) por darem a dica para este texto

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Perfil (a ferramenta ao lado não funciona) – O jornalista Gustavo Chacra, mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia, é correspondente de “O Estado de S. Paulo” em Nova York. Já fez reportagens do Líbano, Israel, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Egito, Turquia, Omã, Emirados Árabes, Yemen e Chipre quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Participou da cobertura da Guerra de Gaza, Crise em Honduras, Crise Econômica nos EUA e na Argentina, Guerra no Líbano, Terremoto no Haiti e crescimento da Al Qaeda no Yemen. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Este blog foi vencedor do Prêmio Estado de Jornalismo em 2009

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