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De Nova York a Jerusalém – Ataque terrorista pode marcar nova Intifada e fim do sonho do Estado palestino

gustavochacra

23 de março de 2011 | 11h22

No twitter @gugachacra

Quando eu visitava Israel até 2004, tinha medo de entrar em um café, em um restaurante e sequer peguei um ônibus. Eram os anos da paranóia da Intifada, quando terroristas do Hamas, do Jihad Islâmico e das Brigadas dos Mártires de Al Aqsa, ligadas ao Fatah, se explodiam quase diariamente em casamentos, baladas e nas ruas de Tel Aviv, Haifa e Jerusalém. Nesta época, quando estava em São Paulo, todos os dias, chegava à editoria de internacional da Folha, onde trabalhava, sabendo que a minha tarefa seria escrever  sobre o mais recente ato de terrorismo cometido pelos palestinos.

Eram tempos em que o mundo se solidarizava com os israelenses. Podem dizer que existe violência em outros lugares. Verdade. Mas, mesmo em uma guerra civil, as pessoas aprendem a se locomover, como ocorreu no Líbano nos anos 1980 e, em menor escala, no Iraque agora. Em Israel, era aleatório. Tão aleatório que muitos palestinos morriam nos atentados.

Nos últimos anos, parecia que Israel havia conseguido ficar imune a estes atentados. Reforçou a segurança, construiu um muro (que infelizmente incorpora áreas palestinas) e viu os palestinos mudarem a estratégia, adotando a prática da resistência civil na Cisjordânia e do lançamento de foguetes em Gaza.

Quando cobri a guerra no fim de 2008 e começo de 2009, além das eleições naquela mesma época, em nenhum momento achei que fosse ser alvo de atentado. Tanto em Jerusalém quanto em Tel Aviv, fiz um tour pessoal que havia realizado em Beirute, visitando os locais que foram atingidos por ataques terroristas. Parecia ser algo do passado. Até me hospedei na área judaica de Jerusalém, e não na árabe. Às vezes, inclusive, visitava a boa praça de alimentação da estação de ônibus em Jerusalém para almoçar. Hoje, terroristas explodiram um ônibus nesta estação e feriram entre 20 e 30 civis. Uma pessoa morreu.

Neste momento, parece que voltei no tempo, para o início deste século, quando observava as imagens dos atentados terroristas na CNN. Este ataque ocorre dias depois de palestinos terem matado uma família de colonos na Cisjordânia e o Hamas ter intensificado os ataques de foguetes em Gaza. Parece que a Terceira Intifada vai começar. Um erro destes grupos terroristas que podem conseguir, apenas, tornar ainda pior a vida dos demais palestinos. Viver em Ramallah hoje é bem melhor do que cinco anos atrás. Justamente porque os palestinos abdicaram da violência. O apoio da opinião pública internacional havia crescido. Agora, com os ataques terroristas, tudo se esvaziará.

Acho uma pena este conflito entre israelenses e palestinos durar tanto tempo, quando todos sabem qual a resolução. Insisto, meu sonho ainda é ir de carro de Beirute a Tel Aviv ou de Damasco a Jerusalém, cruzando um novo Estado palestino. Estes terroristas, porém, estragam o sonho da Palestina. São os maiores inimigos dos próprios palestinos, mais do que qualquer colono ou extremista israelense. Eles assassinam qualquer possibilidade de ter um Estado. A solução para o conflito, que toda a opinião pública internacional concorda, está abaixo

Basicamente, o Estado palestino seria criado na Cisjordânia e na Faixa de Gaza. Israel manteria os principais blocos de assentamentos perto de suas fronteiras. Em troca, daria terras da mesma qualidade em áreas que aproximassem os dois territórios palestinos. Os refugiados palestinos poderiam retornar para o novo Estado, mas não para Israel. Os israelenses reconheceriam que parte dos palestinos foi expulsa na Guerra de Independência (e também deveria haver uma desculpa dos árabes que expulsaram os judeus). Jerusalém continuaria unificada e capital dos dois países. No caso palestino, seria mais simbólica, com a sede da Presidência. A administração, por questões práticas, ficaria em Ramallah.

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O jornalista Gustavo Chacra, mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia, é correspondente de “O Estado de S. Paulo” em Nova York. Já fez reportagens do Líbano, Israel, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Egito, Turquia, Omã, Emirados Árabes, Yemen e Chipre quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Participou da cobertura da Guerra de Gaza, Crise em Honduras, Crise Econômica nos EUA e na Argentina, Guerra no Líbano, Terremoto no Haiti e crescimento da Al Qaeda no Yemen. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Este blog foi vencedor do Prêmio Estado de Jornalismo em 2009, empatado com o blogueiro Ariel Palacios

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