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De Nova York a Jerusalém – Netanyahu precisa escolher entre democracia e território

gustavochacra

21 de maio de 2011 | 00h15

no twitter @gugachacra

“O sonho de um Estado democrático e judaico não pode ser alcançado com permanente ocupação”, afirmou Barack Obama em seu discurso. Com estas palavras, o líder americano se juntou aos que consideram impossível para Israel ser judaico, democrático e incorporando a Cisjordânia.

Desta tríade, sempre citada por acadêmicos, como o historiador israelense Avi Shlaim, Israel só pode ser duas coisas ao mesmo tempo. Se quiser todo o território, anexando definitivamente a Cisjordânia, precisará decidir se concede cidadania a milhões de palestinos que vivem em cidades como Nablus, Ramallah, Belém, Hebron e Jericó.

No passado, ao anexar Jerusalém Oriental e as colinas do Golã, os israelenses ofereceram o direito à cidadania aos moradores destas áreas – muitos rejeitaram. No caso da Cisjordânia, seria mais complicado. Há mais de 2,5 milhões de palestinos vivendo neste território, além dos 300 mil colonos israelenses. Com a concessão de cidadania aos habitantes de origem palestina, levando em conta os mais de 1 milhão de árabes israelenses e outras centenas de milhares de Jerusalém Oriental, a maioria judaica de Israel correria risco. Seria um Estado binacional, mas não judaico, afundando o sonho de Theodor Herzl de criar uma pátria para os judeus.

Outra alternativa, defendida por um membro do Likud, partido de Binyamin Netanyahu, em artigo no New York Times de quinta-feira, defende a anexação da Cisjordânia, sem a concessão de cidadania para os habitantes palestinos. Neste caso, Israel poderia ser classificado como um Estado de apartheid, onde milhões de habitantes não possuem direitos civis, isolando o país da sociedade internacional.

Por último, há a opção de dois Estados. Os Estados Unidos, organizações judaicas liberais, como a J-Street, e a oposição israelense defendem esta saída, usando como base as fronteiras de 1967, com alguns ajustes. Israel poderia manter os principais blocos de assentamentos próximos à fronteira da Cisjordânia, conservando a maior parte dos colonos sob a sua soberania, e passando o restante aos palestinos, incluindo outras terras em compensação para o território que ficasse com os israelenses.

Netanyahu se mostra cético pois, mesmo conservando a maioria dos colonos, a segurança de Israel estaria em risco. Mas, como alertou Obama, “é importante mostrar a verdade. O status quo é insustentável e Israel precisa agir com audácia para avançar a paz”.

No fim, a solução será algo próximo de um Estado palestino na Cisjordânia e na Faixa de Gaza. Os principais blocos de assentamento, próximos à fronteira de 1967, ficariam com Israel. Em troca, os palestinos receberiam outras terras da mesma qualidade que aproximassem os dois territórios. Jerusalém seria uma municipalidade unificada, mas capital dos dois países. Na prática, apenas a sede da Presidência palestina ficaria na parte oriental da cidade, com administração permanecendo em Ramallah, a poucos minutos de distância (sem levar em conta os postos de controle). Vale lembrar que Israel também mantém algumas instituições em Tel Aviv. Os refugiados poderiam retornar para o novo Estado palestino. Israel reconheceria que muitos deles foram expulsos no processo de independência. Países árabes, como o Egito, admitiriam que judeus também foram obrigados a deixar suas nações.

Leiam os blogs da Adriana Carranca, no Afeganistão, do Ariel Palacios, em Buenos Aires, do historiador de política internacional Marcos Guterman, em São Paulo, daClaudia Trevisan, em Pequim, e o Radar Global, o blog da editoria de Internacional do portal estadão.com.br e do jornal O Estado de S.Paulo”

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O jornalista Gustavo Chacra, mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia, é correspondente de “O Estado de S. Paulo” em Nova York. Já fez reportagens do Líbano, Israel, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Egito, Turquia, Omã, Emirados Árabes, Yemen e Chipre quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Participou da cobertura da Guerra de Gaza, Crise em Honduras, Crise Econômica nos EUA e na Argentina, Guerra no Líbano, Terremoto no Haiti e crescimento da Al Qaeda no Yemen. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Este blog foi vencedor do Prêmio Estado de Jornalismo em 2009, empatado com o blogueiro Ariel Palacios

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