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De Nova York a Jerusalém – Primeira Intifada foi o primeiro dos levantes árabes?

gustavochacra

31 Março 2011 | 09h10

No twitter @gugachacra

Acompanhei um debate ontem sobre o filme Miral, do diretor Julian Schnabel. O roteiro, baseado em uma história original, trata da vida de uma jovem palestina de Jerusalém durante a Primeira Intifada. Outro dia, me aprofundarei na discussão sobre o filme, que já provocou enorme polêmica nos EUA por ter sido dirigido e produzido por judeus e ser claramente a favor dos palestinos – Israel tentou bloquear a exibição na ONU e agumas entidades judaicas conservadoras agiram da mesma forma para não permitir que o filme passasse em Nova York.

Obviamente, estas iniciativas serviram de publicidade. A liberal comunidade judaica americana, incluindo os mais jovens, lotaram as salas de cinema desde sexta, dia do lançamento, e adoraram o filme. Especialmente porque mostra um lado dos palestinos que poucos conhecem, celebrando o Natal, com meninas de cabelos soltos que beijam homens na boca, com baladas. Também mostra palestinos sendo torturados nas prisões israelenses. A própria autora do livro, ainda hoje, aos 37 anos, traz marcas das chicotadas que recebeu nas prisões de Israel. Claro, sem deixar de fora também a religiosidade, a opressão da mulher e o terrorismo no lado palestino.

Mas o que interessa não é isso, e sim uma questão levantada por Schnabel no debate de ontem na Universidade Columbia e que já havia passado pela minha cabeça e de outros. Nas últimas semanas, muitos perguntam quando os levantes árabes afetarão os palestinos. Na verdade, o que ocorre é o inverso. Os palestinos estão mais de duas décadas à frente.

A Primeira Intifada seria o equivalente dos levantes árabes. Insisto, a primeira, quando não existiam atentados suicidas contra civis. Houve violência, mas eram mais pedras e, verdade, bombas em alguns casos. Porém foi a primeira vez que os palestinos lutaram genuinamente contra a ocupação, atraindo o apoio da opinião pública internacional e mesmo em Israel.

Tanto que os israelenses foram negociar em Oslo um acordo de paz. O erro, na minha opinião, foi negociar com a OLP, de Yasser Arafat, e não com os palestinos que participaram da Primeira Intifada. Arafat vivia no exílio há décadas e não conhecia nada da situação dos palestinos. Nem ele, nem seus assessores.

Naquela época, os palestinos dos territórios possuíam uma ligação muito mais forte com Israel. Havia a ocupação, mas um morador de Gaza podia trabalhar em Tel Aviv. E os dois povos se davam bem. Não havia a mesma desconfiança que existia de um Yasser Arafat. A solução para o conflito, que toda a opinião pública internacional concorda, está abaixo

Basicamente, o Estado palestino seria criado na Cisjordânia e na Faixa de Gaza. Israel manteria os principais blocos de assentamentos perto de suas fronteiras. Em troca, daria terras da mesma qualidade em áreas que aproximassem os dois territórios palestinos. Os refugiados palestinos poderiam retornar para o novo Estado, mas não para Israel. Os israelenses reconheceriam que parte dos palestinos foi expulsa na Guerra de Independência (e também deveria haver uma desculpa dos árabes que expulsaram os judeus). Jerusalém continuaria unificada e capital dos dois países. No caso palestino, seria mais simbólica, com a sede da Presidência. A administração, por questões práticas, ficaria em Ramallah.

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O jornalista Gustavo Chacra, mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia, é correspondente de “O Estado de S. Paulo” em Nova York. Já fez reportagens do Líbano, Israel, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Egito, Turquia, Omã, Emirados Árabes, Yemen e Chipre quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Participou da cobertura da Guerra de Gaza, Crise em Honduras, Crise Econômica nos EUA e na Argentina, Guerra no Líbano, Terremoto no Haiti e crescimento da Al Qaeda no Yemen. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Este blog foi vencedor do Prêmio Estado de Jornalismo em 2009, empatado com o blogueiro Ariel Palacios

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