As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

De Nova York a Juba – O 9 de Julho, o Sudão do Sul, a Argentina, Hama, Palestina e São Paulo

gustavochacra

10 de julho de 2011 | 12h52

no twitter @gugachacra

O dia Nove de Julho marca a independência da Argentina, a do Sudão do Sul, a Revolução Constitucionalista de São Paulo, mais um dia em que os moradores de Hama se levantaram contra o regime de Bashar al Assad e mais um dia em que o Estado da Palestina não existe e os palestinos, em sua maioria, não são cidadãos de nenhum lugar.

Os argentinos conquistaram a sua independência em uma guerra. O Sudão do Sul conseguiu o apoio da ONU depois de ser vítima de Omar Bashir, indiciado pelo Tribunal Penal Internacional por crimes contra a humanidade, mas ironicamente um dos raros líderes árabes que não é alvo de manifestações contra o seu regime.

Hama ainda não conseguiu levar seus protestos para a capital Damasco. Um cenário similar ao de São Paulo na sua revolução constitucionalista. Os cariocas não aderiram à luta dos paulistas. No fim, prevaleceu a ditadura e o Rio de Janeiro. Na Síria, ainda não sabemos se os damascenos se somarão aos habitantes da cidade mais ao norte. Uma diferença a se notar é que Vargas iniciava a sua ditadura, diferentemente do que ocorre nesta nação árabe, na quarta década de um regime autoritário e hereditário.

Aliás, poucos sabem disso, mas o partido Baath se inspirou no varguismo, apesar de o principal modelo ter sido o Partido Justicialista (Peronista), da Argentina. A propaganda política, o partido único e o culto à personalidade têm sua origem em Buenos Aires.

A Argentina ficou independente na mesma onda que os demais países latino-americanos. Era o começo do século 19. Cuba demorou um pouco mais e apenas conquistou a independência da Espanha depois da Guerra Hispano-Americano. Não fossem os EUA, talvez os cubanos demorassem mais para serem uma nação. Dizem, e aqui peço ajuda aos leitores mais entendidos, que a bebida Cuba Libre, misturando rum e coca-cola, seria uma homenagem ao envolvimento fundamental dos americanos nos acontecimentos em Havana.

No fim, Cuba se converteu por anos uma espécie de protetorado americano. Não muito diferente do Haiti, segundo país independente do continente, que foi praticamente administrado pelos EUA através de imigrantes libaneses a serviço de Washington na primeira metade do século passado – até hoje eles compõem a elite do miserável país caribenho.

O Sudão do Sul também deve aos EUA a sua independência, apesar de ter ocorrido depois da onda de libertação africana do pós-Segunda Guerra. O presidente do novo país africano até usa o seu chapéu de cowboy, recebido de presente de George W. Bush. Sem o apoio de Washington, estaria na mesma situação dos palestinos, que também se atrasaram na busca da independência. E os sudaneses do sul, quando eram unificados aos do norte, tinham a vantagem de pelo menos possuírem cidadania.

Os palestinos na Cisjordânia, de Gaza, do Líbano e da Síria não são cidadãos de nenhum lugar. Sorte tiveram apenas os que se refugiaram na Jordânia – por favor, não me venham com a bobagem propagada de que os palestinos vivem em todos países árabes. Havia uma elite no Kuwait, expulsa depois do apoio de Arafat à ocupação de Saddam Hussein. E, como sabemos, não fosse a intervenção americana, até hoje os kuwaitianos estariam nas mãos do ditador iraquiano.

Obs. O Ariel Palacios poderia esclarecer melhor, mas sei de argentinos que pensam que a Avenida Nove de Julho, em São Paulo, é uma homenagem à independência da Argentina

Comentários islamofóbicos, anti-semitas e anti-árabes ou que coloquem um povo ou uma religião como superiores não serão publicados. Tampouco ataques entre leitores ou contra o blogueiro. Pessoas que insistirem em ataques pessoais não terão mais seus comentários publicados. Não é permitido postar vídeo. Todos os posts devem ter relação com algum dos temas acima. O blog está aberto a discussões educadas e com pontos de vista diferentes. Os comentários dos leitores não refletem a opinião do jornalista

O jornalista Gustavo Chacra, mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia, é correspondente de “O Estado de S. Paulo” em Nova York. Já fez reportagens do Líbano, Israel, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Egito, Turquia, Omã, Emirados Árabes, Yemen e Chipre quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Participou da cobertura da Guerra de Gaza, Crise em Honduras, Crise Econômica nos EUA e na Argentina, Guerra no Líbano, Terremoto no Haiti e crescimento da Al Qaeda no Yemen. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Este blog foi vencedor do Prêmio Estado de Jornalismo, empatado com o blogueiro Ariel Palacios

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.