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De Nova York a Munique – Por que a Alemanha maquiou o campo de concentração de Dachau?

gustavochacra

17 de outubro de 2010 | 09h44

Estive pela primeira vez em um campo de concentração na semana passada. Visitei o de Dachau, nas cercanias de Munique. O local onde dezenas de milhares de judeus e outras minorias foram mortos em escala industrial se localiza em uma vila alemã perfeitinha, da Bavária.

Dachau lembra um quartel-general. Consiste, hoje, de um prédio principal, com exibições e filmes, e a réplica de um dos 32 barracões onde eram colocadas as vítimas do Holocausto. No final, depois de caminhar em meio a árvores, e passar por memoriais cristãos e judaico, está a câmara de gás.

Os nazistas diziam para os judeus que eles iriam tomar banho. Para os prisioneiros, praticamente um sonho depois de ficar meses sem poder se limpar. Eles tiravam as roupas e eram colocados em uma sala. Depois, uma porta se abria para uma outra sala, onde supostamente estariam os chuveiros. Há buracos no teto e começava a cair água. Mas, em seguida, começavam a liberar gás que sufocavam as vítimas. Depois, seus corpos eram levados para os crematórios.

Para os nazistas, não havia apenas a necessidade de matar o outro, como nos genocídios de Ruanda, Camboja e Armênia. Não, para eles, um tiro não bastava. Era preciso colocar nas câmaras de gás e isso diferencia o Holocausto dos demais genocídios.

Deixei o campo impressionado e pensando como se sentiria um judeu na Alemanha nos dias de hoje. Até pergunto aos leitores. A normalidade da vila de Dachau ao lado do campo, como escrevi, é assustador. Assim como alguns turistas conversando normalmente e sorridentes. Será que não percebem o que passou naquele lugar? Uma minoria que integrava a sociedade alemã foi exterminada apenas por causa da religião. Os judeus não atacaram ninguém na Alemanha. Eles não eram inimigos. Eram alemães, mas judeus. Esta era a única diferença.

Também fica a pergunta de os motivos de Ahmadinejad questionar o Holocausto. O que ele ganha com isso? Ele mesmo diz ser um problema dos europeus com os judeus. Logo, o que o presidente do Irã tem a ver? Para completar, o líder iraniano deveria saber que a atual extrema direita européia, em países como a Holanda e mesmo na Alemanha, considera os muçulmanos a nova minoria a ser atacada. Logo,  saber o que ocorreu no Holocausto serve para mostrar como o preconceito leva pessoas normais – parcela da população alemã – a cometer  o mais deplorável crime em séculos.

Além disso, meu pai, que estava comigo, visitava Dachau pela terceira vez. Ele esteve no campo nos anos 1960, com os colegas de medicina da Escola Paulista. E, posteriormente, com meus irmãos depois da queda do Muro de Berlim. Na avaliação dele, nesta terceira vez, certas mudanças realizadas no campo pelas autoridades alemãs “amenizaram” o que era o campo. Realmente, depois de pesquisa, verifiquei que os galpões foram retirados por estarem em “más condições”. Bases da SS no local são usadas pela polícia alemã e não fazem parte do memorial. E, para completar, as imagens disponibilizadas estão muito aquém das que eu vi no museu do Holocausto em Washington.

Honestamente, acho lamentável que tenham “amenizado” o que foi Dachau. Um desrespeito às memórias das vítimas. Um leitor judeu aqui do blog me havia alertado sobre estas mudanças.

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O jornalista Gustavo Chacra, mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia, é correspondente de “O Estado de S. Paulo” em Nova York. Já fez reportagens do Líbano, Israel, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Egito, Turquia, Omã, Emirados Árabes, Yemen e Chipre quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Participou da cobertura da Guerra de Gaza, Crise em Honduras, Crise Econômica nos EUA e na Argentina, Guerra no Líbano, Terremoto no Haiti e crescimento da Al Qaeda no Yemen. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Este blog foi vencedor do Prêmio Estado de Jornalismo em 2009, empatado com o blogueiro Ariel Palacios

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