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De Nova York a Nova York – Um ano em que passei pelo Haiti, Yemen, Emirados Árabes, Colômbia, Síria, Alemanha, Líbano e Brasil

gustavochacra

30 de dezembro de 2010 | 18h25

Este será o último post de 2010. Acho que não vale a pena me focar em algum assunto específico. Apenas vou relembrar algumas das minhas principais coberturas. Na virada do ano passado, nesta época, eu estava cobrindo a tentativa de atentado de um nigeriano em Detroit que teria sido treinado no Yemen.

Dias depois, no fim de uma tarde de inverno em Nova York, soube do terremoto no Haiti. No dia seguinte, eu estava em Porto Príncipe em uma das maiores experiências da vida de um jornalista. Nunca me recuperarei como ser humano das coisas que vi naqueles dias e que, de uma certa forma, estão bloqueadas na minha cabeça. Era o fim do mundo, com aquele palácio desmoronado que nunca mais vai sair da minha memória. Com uma patricinha linda morando em um campo de desabrigados no estádio de futebol. Com uma matriarca de oito décadas sobrevivendo quatro dias sob escombros.

Voltei do Haiti e embarquei para o Yemen. Um dos países com a arquitetura mais fantástica da humanidade, uma viagem a outro planeta, um lugar isolado que aos poucos se transforma no centro da Al Qaeda e que pode, assim como Afeganistão em 2001, alterar o destino da humanidade. Andar nas ruas de Sanaa me deu a sensação de estar perdido em outra dimensão, sozinho, como se São Paulo e Nova York estivessem em outro universo. Mas, ao realizar dois seminários com profissionais liberais e empresários em meio a rituais do qat, descobri que todos no mundo de hoje são parecidos. Aquelas pessoas poderiam estar no vestiário do Paulistano.

Em 2010, também estive na Colômbia. Os colombianos e as colombianas, na minha opinião, são o que há de mais próximo dos paulistas. Bogotá encanta pela supresa, pela elegância de suas ruas e seus prédios de tijolo. Cartagena é uma viagem real aos livros de Gabriel Garcia Marquez. Nossas relações políticas com a Colômbia deveriam se aprofundar ainda mais.

Estive duas vezes em Dubai neste ano. E apresendi a gostar da cidade e seu gigantesco Burj al Khalifa. Falem o que quiserem, mas visitei quase 50 países nestes meus 34 anos de idade e nunca vi algo tão impressionante quanto aquele prédio.

No fim de junho, durante a Copa do Mundo que tanto torci pelo Uruguai e os EUA, entrevistei o presidente da Síria, Bashar al Assad, com seu jeito jovial de jogador de basquetedo clube Sírio.  Como tantas outras vezes nestes últimos anos, andei pelas ruas de Bab Touma, na cidade velha de Damasco, com seus restaurantes, hotéis boutiques, igrejas e mesquitas. Voltei mais uma vez às colinas do Golã, sempre sonhando com uma solução para o conflito entre sírios e israelenses, muitas vezes esquecido diante da questão palestina.

Com o meu pai, visitei o campo de concentração de Dachau. Quem quiser entender o século 20 deve visitar o local para saber do que o ser humano, mesmo em avançadas sociedades, como a alemã, é capaz.

Em novembro, voltei de novo ao Haiti. Desta vez, para cobrir as eleições e a cólera. Como escrevi aqui, Porto Príncipe, infelizmente, continua um cenário de apocalipse. Dias depois, visitei mais uma vez Beirute, uma cidade que vive entre o sonho de metrópole cosmopolita, e o pesadelo de ser sinônimo de guerra. A variação entre uma e outra parece ser tão rápida quanto o terremoto de Porto Príncipe.

Passei poucos dias em São Paulo, que se tornou exemplo em matérias de jornais como o Wall Street Journal ao citarem casos de sucesso econômico “like in Shangai, Abu Dhabi, Mumbai and São Paulo”.

E hoje encerro o ano daqui, da cidade que eu mais gosto no mundo, onde escolhi viver. Na vida, obviamente, nascemos em algum lugar. Não temos como escapar. Sempre serei de São Paulo, dos Jardins, do Paulistano, do Litoral Norte. Mas temos a oportunidade de escolher onde viver.

Quando embarquei ao Brasil para o Natal, conversei rapidamente com uma mulher de cerca de 60 anos na fila. Está aqui há duas décadas. “Meus filhos querem que eu volte, mas não consigo. Minha casa é Long Island”. No meu caso, minha casa é Nova York

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O jornalista Gustavo Chacra, mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia, é correspondente de “O Estado de S. Paulo” em Nova York. Já fez reportagens do Líbano, Israel, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Egito, Turquia, Omã, Emirados Árabes, Yemen e Chipre quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Participou da cobertura da Guerra de Gaza, Crise em Honduras, Crise Econômica nos EUA e na Argentina, Guerra no Líbano, Terremoto no Haiti e crescimento da Al Qaeda no Yemen e eleições em Tel Aviv, Beirute e Porto Príncipe. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Este blog foi vencedor do Prêmio Estado de Jornalismo em 2009, empatado com o blogueiro Ariel Palacios

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