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De Nova York a Pequim – Brasil não tem inovação americana e nem investimentos chineses

gustavochacra

28 de setembro de 2010 | 09h34

Quando viajávamos aos Estados Unidos nos anos 1980, tínhamos a sensação de ir para o futuro. Do chiclete aos brinquedos, das dezenas de canais na TV ao tênis da Nike, ficávamos encantados com produtos a anos luz do Brasil, um país que ainda fechava as suas fronteiras para computadores e para o futuro.

Nas últimas duas décadas, a diferença diminuiu. Quem visita Nova York não se espanta tanto, pois quase todas as tendências surgem simultaneamente no Brasil. Talvez prefiram comprar um iPad ou um iPhone aqui nos EUA porque o preço continua mais baixo. Mas dá para encontrar quase de tudo em São Paulo, que se transformou em uma cidade global, ao lado de Tóquio, de Hong Kong, de Londres e daqui de Nova York.

Os Estados Unidos permanecem na liderança mundial, mas vemos a China ganhando cada vez mais espaço, assim como outros potências emergentes, incluindo o Brasil, novo acionista majoritário de empresas como o Burger King, um símbolo dos americanos.

Mas existem diferenças entre o Brasil e alguns outros países emergentes. Na verdade, podemos dividir as novas potências em dois grupos. O dos que possuem projeto de país, como a China, e o dos que possuem uma iniciativa privada inovadora que carrega o país nas costas apesar dos obstáculos do governo, como o Brasil.

O colunista Thomas Friedman, em sua última coluna no New York Times, afirma que a China possui projetos de infra-estrutura no longo prazo, para daqui 25 anos. Estão construindo aeroportos ultra modernos, redes ferroviárias, investimentos em biociência e até mesmo carros elétricos. Enquanto isso, segundo ele, os EUA investem em um plano de 25 anos no Afeganistão.

De uma certa forma, ele está correto, mas esquece que a iniciativa privada americana ainda é imbatível na inovação e nem sempre precisamos do governo intervindo na economia. Estive há algumas semanas no centro de pesquisas da GE. No laboratório de nanotecnologia, os cientistas buscam desenvolver uma superfície que seja um teflon quase perfeito para a água. Será usado na aviação e também em turbinas de moinhos de vento que produzem energia. O objetivo é evitar a acumulação de sujeira e gelo que, no longo prazo, causam fissuras. Na experiência, o cientista pinga uma gota na superfície. Imediatamente, ela escorrega sem deixar rastro algum – até mesmo o mel escorrega. Em outra, com proteções dos lados da superfície, a gota da água fica batendo de um lado a outro tentando escapar daquele teflon.

Outro experimento impressionante é o imã de líquidos. Uma espécie de contraste é colocado em um pote. Em seguida, o cientista posiciona um instrumento magnético que atrai o líquido formando uma espécie de cogumelo semelhante à imagem da explosão da bomba atômica em Hiroshima.

Os cientistas também concluíram o desenvolvimento de um ultra-som um pouco maior do que um iPhone que já está no mercado. Um de seus laboratórios também desenvolvem produtos e parceria com a indústria farmacêutica que podem revolucionar o tratamento de diabetes e do câncer.

O Brasil é inovador, sem dúvida, como vemos na Embraer. Mas ainda estamos bem atrás dos EUA e nosso governo gigantesco atrapalha os empresários. Talvez a discussão no Brasil não devesse ser se vamos investir como na China. Mas sim como faríamos para diminuir o tamanho do Estado, com menos impostos, abrindo caminho para a criativa classe empresarial brasileira.

E sei que alguns leitores reclamarão que não falei da sentença da Sakineh (vou acompanhar o encontro do Amorim com o chanceler iraniano daquia a pouco), do novo barco com ativistas – desta vez judeus – interceptados por Israel (más de lo mismo) ou outros assuntos. Mas até mesmo no Oriente Médio, muitas vezes, a prioridade não é falar de conflitos. Israel e países do golfo Pérsico pensam no longo prazo. Não é à toa que, ao viajarmos hoje, nos sentiremos no futuro se estivermos em aviões de companhias árabes ou de Cingapura, não dos EUA. Quem já fez escala em Dubai sabe do que estou falando.

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O jornalista Gustavo Chacra, mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia, é correspondente de “O Estado de S. Paulo” em Nova York. Já fez reportagens do Líbano, Israel, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Egito, Turquia, Omã, Emirados Árabes, Yemen e Chipre quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Participou da cobertura da Guerra de Gaza, Crise em Honduras, Crise Econômica nos EUA e na Argentina, Guerra no Líbano, Terremoto no Haiti e crescimento da Al Qaeda no Yemen. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Este blog foi vencedor do Prêmio Estado de Jornalismo em 2009, empatado com o blogueiro Ariel Palacios

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