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De Nova York a Porto Príncipe – Como foi cobrir o terremoto do Haiti, 770 vezes pior do que o 11 de Setembro

gustavochacra

12 de janeiro de 2011 | 03h46

Quando o terremoto destruiu Porto Príncipe às 16h53 do dia 12 de janeiro do ano passado, eu estava em Nova York tomando café perto da NYU. O dia não tinha notícia. Voltei para a casa e vi o breaking news na CNN sobre o terremoto. O Roberto Lameirinhas, editor de Inter do Estadão, me telefonou para pedir para eu embarcar imediatamente para Santo Domingo, capital da República Dominicana, e de lá para o Haiti. Faz um ano hoje. Viajei para ver o velório inexistente de dezenas de milhares de pessoas que, além de não terem nome, muitas vezes sequer eram contadas antes de serem despejadas em covas coletivas.

A dimensão da destruição do Haiti pode ser entendida quando comparamos com o 11 de Setembro. Os ataques terroristas mataram 3 mil pessoas em uma cidade de mais de 12 milhões de habitantes. Cerca de cinco quarteirões de milhares existentes em Nova York foram destruídos.

Em Porto Príncipe, havia cerca de 1,2 milhões de pessoas. Cerca de 230 mil morreram. São 77 vezes mais do Nova York. Se levarmos em conta o tamanho das duas cidades, o total de vítimas equivaleria a 770 vezes o total de mortos no World Trade Center. Em alguns segundos, mais do que o público pagante da final Brasil versus Uruguai na Copa de 1950 faleceu. Algo comparável apenas à bomba de Hiroshima. Mais de 80% das edificações da cidade ficaram arruinadas. Era uma tarde de sol no Haiti. Não havia guerra, não havia medo.

Diferentemente de furacões, ninguém consegue prever um terremoto. A surpresa é total. A terra começa a tremer sem aviso. Foi assim no Haiti. “Achei que fosse o caminhão de água passando pela rua no primeiro segundo. Em seguida, percebi que era um terremoto. Pulei da sacada. O major demorou um segundo a mais. Foi esmagado entre o primeiro e o segundo andar”, me disse um oficial brasileiro que sobreviveu na base do Forte Nacional.

O Palácio Nacional desmoronou. A catedral também. Assim como o Montana e o Cristopher, que eram os dois principais hotéis. A cidade à beira mar que não tinha orla, agora também havia deixado de ter símbolos.  Os corpos ficaram jogados nas ruas. Tantos que, no final, encarávamos como se fosse parte de um cenário. Outros estavam sob os escombros. De alguns, eu só via os braços ou as cabeças para fora do entulho. Fios de cabelo com marca de sangue. Não sei se a pessoa morreu imediatamente ou se sobreviveu algumas horas ou minutos, tendo consciência de que sua vida chegava ao fim. Outros mortos eram queimados. Aqueles corpos carbonizados que se reduzem de tamanho, mas mantêm as formas de hominídeo.

Pessoas sobreviviam dois, três, quatro, cinco dias sob os escombros. Hospitais eram montados na calçada. Voluntários de lugares como a Inglaterra entravam no meio das casas destruídas para tentar resgatar os sobreviventes. São heróis, como os soldados brasileiros da MINUSTAH. No Haiti, descobrimos como seria o mundo no dia do apocalipse.

De Beirute a Nova York, de Sanaa a Gaza, de Tegucigalpa a Tel Aviv, de Bogotá a Paris e de Alexandria a Buenos Aires, nenhuma cidade me marcou tanto para sempre como Porto Príncipe.

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O jornalista Gustavo Chacra, mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia, é correspondente de “O Estado de S. Paulo” em Nova York. Já fez reportagens do Líbano, Israel, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Egito, Turquia, Omã, Emirados Árabes, Yemen e Chipre quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Participou da cobertura da Guerra de Gaza, Crise em Honduras, Crise Econômica nos EUA e na Argentina, Guerra no Líbano, Terremoto no Haiti e crescimento da Al Qaeda no Yemen e eleições em Tel Aviv, Beirute e Porto Príncipe. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Este blog foi vencedor do Prêmio Estado de Jornalismo em 2009, empatado com o blogueiro Ariel Palacios

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