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De Nova York a Riad – Petróleo, e não islã, impede democracia no mundo árabe

gustavochacra

15 de julho de 2010 | 10h01

Alguns dias atrás, fiz uma entrevista com Rashid Khalidi, historiador americano de origem palestina e  titular da cadeira Edward Said de Estudos Árabes da Universidade Columbia, em Nova York, onde foi meu professor. Nascido e criado nos Estados Unidos, ele passou a ser considerado o maior intelectual árabe no Ocidente, sucedendo justamente Said, que morreu em 2003. Aproveitei a oportunidade para questioná-lo sobre as dificuldades dos países do Oriente Médio conseguirem se democratizar. Ao longo dos dias, colocarei outras questões que fiz para ele

A América Latina, nos anos 1970, tinha ditaduras em quase todos os seus países. Hoje, é apenas Cuba. No mundo árabe, todos os países menos o Líbano, Iraque e Palestina poossuem ditadores ou reis absolutistas. Por que estes países não conseguem se democratizar, como outras regiões do mundo?

Khalidi – Você se esqueceu do Kuwait, onde há uma monarquia, mas cujos poderes para formar o governo e determinar o Orçamento é limitado pelo Parlamento. Não chega a ser uma monarquia constitucional ou uma real democracia. Mas certamente não é uma monarquia absolutista como Qatar, Omã, Emirados Árabes Unidos, Arábia Saudita ou Bahrein.

De qualquer, você tem um ponto. Não apenas a América Latina, como também o Leste Europeu, o Sudeste da Ásia, o Leste da Ásia e grande parte da África  e do sul da Ásia, que eram governados por ditaduras algumas décadas atrás, possuem hoje diferentes graus de democracia. Apenas o Oriente Médio e em particular o mundo árabe é a exceção em relação a esta tendência.

Muitos culpam o islamismo pelo déficit democrático, porém isso é um erro. Na verdade, a maior parte da população muçulmana esta fora do mundo árabe, vivendo sob governos com algum grau de democracia, como a Turquia, Nigéria, Indonésia, Malásia, Bangladesh e índia, que possui mais seguidores do islamismo do que qualquer país árabe. Eu tenho duas explicações. Primeiro, o impacto destrutivo da renda do petróleo e do gás, que fortalecem o absolutismo. Em segundo lugar, os contínuos conflitos fortalecem os serviços de segurança, o Exército e o poder Executivo em detrimento da sociedade civil. Mas eu sou a primeiro a admitir que mesmo estas explicações são parciais.

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O jornalista Gustavo Chacra, mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia, é correspondente de “O Estado de S. Paulo” em Nova York. Já fez reportagens do Líbano, Israel, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Egito, Turquia, Omã, Emirados Árabes, Yemen e Chipre quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Participou da cobertura da Guerra de Gaza, Crise em Honduras, Crise Econômica nos EUA e na Argentina, Guerra no Líbano, Terremoto no Haiti e crescimento da Al Qaeda no Yemen. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Este blog foi vencedor do Prêmio Estado de Jornalismo em 2009, empatado com o blogueiro Ariel Palacios

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