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De Nova York a Sanaa – Esquecido, o Yemen é o centro da Al Qaeda no mundo

gustavochacra

29 de outubro de 2010 | 19h35

Existem dois principais pólos de operação da rede terrorista Al Qaeda atualmente. O primeiro deles, na fronteira do Paquistão com o Afeganistão, está no foco da maior guerra do mundo hoje, com o envolvimento de cerca de 100 mil soldados americanos e outras dezenas de milhares de aliados.

O outro é o Yemen. Um país onde o Estado praticamente não exerce poder fora dos limites de Sanaa e alguns outros poucos centros urbanos. Quando visitei o país, no início deste ano, fui aconselhado por autoridades iemenitas a não circular a um raio além de 50 km ao redor da capital. Se os americanos ainda não atingiram o seu objetivo mesmo depois de nove anos de guerra no Afeganistão, imaginem a dificuldade no Yemen, onde não possuem tropas.

Sendo uma espécie de oásis para jihadistas, o Yemen tem servido como base para novas tentativas de atentado contra os EUA e outros países, incluindo os pacotes-bombas enviados através da UPS com o objetivo de atingir organizações judaicas de Chicago. Livres, os militantes da Al Qaeda na Península Arábica circulam sem grandes problemas pelo território. Na maioria dos casos, contam com o apoio das tribos locais.

Os EUA intensificaram desde o início deste ano o suporte ao Exército iemenita, com fornecimento de armas e treinamento. Mas não é fácil politicamente para o presidente Ali Abdullah Saleh. Poderoso até os anos 1990, quando unificou o norte e o sul do Iêmen, o líder iemenita se enfraqueceu nos últimos anos com o petróleo do país praticamente acabando e sem outras fontes de renda.

Para se equilibrar no poder, Saleh manteve por muitos anos uma espécie de acordo com a Al Qaeda e as tribos locais. Basicamente, o presidente não se envolvia com os militantes. Em troca, ninguém importunava o seu enfraquecido governo. Depois de um nigeriano treinado pela Al Qaeda no Yemen tentar explodir um avião no ano passado, esta situação ficou insustentável.

Os americanos não aceitam mais que Saleh tolere os militantes da Al Qaeda no território. E o presidente teme se enfraquecer ainda mais. Caso isso ocorra, a tendência é de que o Yemen se transforme em uma espécie de Somália, com o Estado praticamente inexistente. Isso em um país onde quase todos os cidadãos adultos andam armados. Será uma prolongada guerra civil e o cenário ideal para a Al Qaeda.

Talvez, hoje, o Yemen seja mais prioritário para os EUA do que o Afeganistão e o Iraque.

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O jornalista Gustavo Chacra, mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia, é correspondente de “O Estado de S. Paulo” em Nova York. Já fez reportagens do Líbano, Israel, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Egito, Turquia, Omã, Emirados Árabes, Yemen e Chipre quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Participou da cobertura da Guerra de Gaza, Crise em Honduras, Crise Econômica nos EUA e na Argentina, Guerra no Líbano, Terremoto no Haiti e crescimento da Al Qaeda no Yemen. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Este blog foi vencedor do Prêmio Estado de Jornalismo em 2009, empatado com o blogueiro Ariel Palacios