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De Nova York a São Paulo – “Israel nunca teve um premiê de kipá”, diz repórter do Estadão

gustavochacra

15 de setembro de 2010 | 07h12

O Roberto Simon, repórter de Internacional do Estadão, acabou de retornar a São Paulo depois de viagem de férias e a trabalho com a namorada para Israel e Cisjordânia. E decidi entrevistá-lo para o blog para sabermos como andam as coisas em Jerusalém, Ramallah, Tel Aviv e Nablus. Por favor, respeitem o convidado, que responderá a questões de vocês

Jerusalém será dividida?

Sinceramente, não consigo imaginar os dois lados concordando em cortar Jerusalém ao meio com uma fronteira convencional. Será que um dia teremos de mostrar um passaporte num controle de fronteira para ir do Monte das Oliveiras para a o mercado Mahané Yehuda? Seria triste.

Aliás, fiquei mais convencido de que os dois lados reconhecem essa “indivisibilidade física” depois de entrevistar o negociador-chefe da Autoridade Palestina, Saeb Erekat, que afirmou com todas as letras: “Nós não precisamos dividir Jerusalém”. Segundo ele, um acordo para manter a cidade unificada e, ao mesmo tempo, capital de dois Estados já teria sido negociado com os israelenses. Na entrevista, ele ficava repetindo “we’ve been there”, como “isso tudo já foi discutido”. Falta condição política dos dois lados para bater o martelo.

Os palestinos aceitarão abdicar do direito de retorno dos refugiados?

Acho que isso depende do que se entende por “palestinos”. Autoridade Palestina? Caso conseguirem de Israel concessões importantes para um Estado viável, imagino que concordariam em abdicar do direito total de retorno (há fórmulas como retorno “de poucos” e compensações financeiras sendo discutidas). Hamas? Neste momento – e num futuro próximo –, isso é absolutamente impensável.

Israel concordará em desmantelar os assentamentos?

Sentindo o clima entre os israelenses, diria que a maioria até veria com bons olhos se desfazer dos assentamentos, digamos, “mais radicais”, onde ultra-religiosos vivem cercados de palestinos para construir a Grande Israel. É o caso dos outposts no Vale do Jordão, por exemplo. Quando Ariel Sharon retirou, à força, os colonos da Faixa de Gaza, a maioria apoiou o premiê. A situação é outra, porém, em locais nos arredores de Jerusalém como o assentamento de Ma’ale Adumim. Quem chegar lá esperando encontrar um punhado de fanáticos protegidos por arame farpado vai se surpreender. São dezenas de milhares de pessoas, em sua maioria laicas, que decidiram ir para lá porque os incentivos fiscais e práticos oferecidos pelo governo tornam tudo mais fácil – e barato. É improvável que os israelenses aceitem o “fim” de Maale Adumim. Mais concebível seria um acordo de permuta de território: o assentamento seria anexado a Israel em troca de território equivalente em outra região, a ser negociada. Veremos…

Hoje Israel é mais Tel-Aviv (liberal) ou Jerusalém (conservadora)?

Ótima pergunta e realmente não sei a resposta. Se isso quer dizer alguma coisa, nunca um judeu de kipá governou Israel – nem mesmo nos governos mais à direita, como o atual, de Netanyahu. Mas nunca os grupos de colonos tiveram um peso tão decisivo na política israelense quanto agora. Esse equilíbrio instável determinará não só a paz com os palestinos, mas a identidade do próprio Estado. Israel será uma democracia com uma maioria de judeus, ou a Terra Prometida por Deus ao povo escolhido?

Hoje a Cisjordânia é mais Ramallah ou Nablus?

Fiquei impressionado com a quantidade de mulheres com véu “à Nablus” em Ramallah. Mas elas vivem lado a lado com garotas palestinas de vestido decotado e óculos Channel. Achei um cantinho para almoçar em Jericó durante o Ramadã – e ninguém pareceu se importar muito com isso. Mas também não sei dizer claramente qual versão, religiosa ou laica, prevalece na Cisjordânia (em Gaza a história é obviamente outra). Na Terra Santa, as duas realidades vivem coladas. Torço para que a religião não domine o espaço público nem dos israelenses, nem dos palestinos. Entre políticos, sempre é possível haver diálogo e, com vontade, compromissos. Mas, contra Deus, não há argumentos.

“O Roberto também está dando um curso em São Paulo “para analisar os principais temas do noticiário internacional e seu contexto histórico, político, econômico e sócio-cultural. As aulas são semanais (segunda-feira às 10h) e, em cada uma, dois eventos importantes da agenda global são discutidos. Hoje, mesmo leitores de jornais e revistas têm dificuldade de se manter a par do noticiário. Assim, a ideia é ajudar os alunos a entender, a fundo, o que está acontecendo. Também há sugestões de leituras complementares (jornais e revistas internacionais)”.

Professor | Roberto Simon
Duração | 4 encontros semanais
Dias | segundas-feiras, das 10:00 às 12:00 horas
Datas | início 13 de setembro
Local | Fundação Ema Klabin – Rua Portugal 43, Jardim Europa
Valor | R$ 70,00 reais por aula (pagamento mínimo de 4 aulas)

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O jornalista Gustavo Chacra, mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia, é correspondente de “O Estado de S. Paulo” em Nova York. Já fez reportagens do Líbano, Israel, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Egito, Turquia, Omã, Emirados Árabes, Yemen e Chipre quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Participou da cobertura da Guerra de Gaza, Crise em Honduras, Crise Econômica nos EUA e na Argentina, Guerra no Líbano, Terremoto no Haiti e crescimento da Al Qaeda no Yemen. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Este blog foi vencedor do Prêmio Estado de Jornalismo em 2009, empatado com o blogueiro Ariel Palacios


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