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De Nova York a Teerã – Em conversa com o blog, Nobel da Paz do Irã ataca Lula e dá recado a Dilma (Parte 1)

gustavochacra

14 de novembro de 2010 | 11h38

Demonstrando uma clara insatisfação com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a iraniana e Nobel da Paz em 2003, Shrin Ebadi, conversou comigo em um hotel de Nova York para enviar uma mensagem para Dilma Rousseff. “Por favor, diga à sua presidente, em meu nome, para ela não se cobrir com o véu se for ao Irã. Não precisa ter medo da lei iraniana. Por ser presidente, possui imunidade diplomática. Alguém precisa mostrar ao governo do Irã que esta lei não é correta”, disse.

Na avaliação dela, “Lula visitou Teerã, abraçou (o presidente, Mahmoud) Ahmadinejad, deu um beijo no rosto e partiu. Mas parece ter se esquecido que pessoas são mortas e colocadas na prisão no Irã.” Abaixo, a primeira parte da entrevista, publicada na íntegra no Estadão. Amanhã, postarei a segunda parte, em que ela fala do Irã.

Estado – Qual a sua opinião da iniciativa do Brasil de negociar a questão nuclear com o Irã? A sra. acha que o presidente Lula agiu corretamente?

Shrin Ebadi – Em geral, prefiro negociações para resolver os problemas. Mas o Brasil não foi capaz de resolver nada. A forma de agir do governo brasileiro não foi positiva. Na verdade, Lula visitou Teerã, abraçou Ahmadinejad, deu um beijo no rosto e partiu. Mas parece ter se esquecido que pessoas são mortas e colocadas na prisão no Irã.

Eu enviei mensagens a Lula, que foi um sindicalista, dizendo a ele que se encontrasse com as famílias de trabalhadores iranianos que estão na prisão por suas ligações com os sindicatos. Quando Lula esteve no Irã, (Mansour) Osanlou, um líder sindical como ele, já cumpria pena de cinco anos. A Organização Mundial do Trabalho pediu a sua libertação, mas Lula o ignorou.

Osanlu sofre de diabetes, tem problema de visão e está com paralisia. Embora o médico tenha dado certificado para ele deixar a prisão para se tratar, o governo não autorizou. Há muitas outras pessoas na mesma situação que ele nas prisões iranianas.

Estado – Há também dezenas de mulheres presas no Irã. A sra. espera que a presidente eleita do Brasil, Dilma Rousseff, faça algo para ajudá-las?

Ebadi – Depois da revolução, uma série de leis discriminatórias contra as mulheres foram aprovadas no Irã. A vida de uma mulher equivale à metade da de um homem. Por exemplo, se um homem e uma mulher saem para a rua e são atacados, a indenização que a mulher receberá será o equivalente à metade da do homem. Na Justiça, o testemunho de duas mulheres equivalem ao de um homem. Um homem pode casar com quatro mulheres. E existem várias outras leis discriminatórias.

A presidente eleita do Brasil, como mulher, certamente não concorda com estas leis. E as mulheres iranianas tampouco as aceitam. Mas, quando elas protestam contra esta legislação, são detidas por terem agido contra a segurança nacional, segundo argumento do governo. As advogadas que as defendem também acabam nas prisões. Uma destas advogadas é minha colega Nasrin Soutodeh. Ela foi presa há dois meses. Está em uma solitária e sem poder ver os advogados. Não tem acesso a televisão, rádio ou jornais. Além disso, sofre com pressões físicas e psicológicas. Desde o domingo, está em greve de fome (continuava até o fechamento desta edição). Estamos preocupados com a vida dela.  Gostaria que a nova presidente do Brasil a ajudasse.

Todas as mulheres, sendo muçulmanas ou não, que viajem ao Irã, precisam cobrir a cabeça. É uma lei estranha, pois quem não é muçulmana não precisa usar o véu. Por favor, diga à sua presidente, em meu nome, para ela não se cobrir com o véu se for ao Irã. Não precisa ter medo da lei no Irã. Por ser presidente, possui imunidade diplomática. Alguém precisa mostrar ao governo do Irã que esta lei não é correta.

Estado – Então sua mensagem para Dilma é não se cobrir quando visitar o Irã?

Ebadi – Sim, e também conversar com movimentos independentes de mulheres, e não apenas as que estão no Parlamento.

Estado – Fala-se muito sobre a situação de Sakineh Ashtiani no Brasil. E as informações são muitas vezes diferentes. Um dia dizem que ela será morta, no outro não. Às vezes dizem que será por apedrejamento, outras vezes não. Uns dizem que seria porque ela traiu o marido. Mas outros afirmam que ela é acusada de assassinato. Qual é a verdade?

Ebadi – Sakineh foi sentenciada ao apedrejamento. Há inúmeras campanhas internacionais para defendê-la. Mas o mais importante é que ela não é a única sentenciada. Há várias outras com a mesma sentença esperando no corredor da morte. Em vez de apenas fazer campanha por Sakineh, deveríamos lutar pelo fim deste tipo de sentença por apedrejamento, ajudando a todas. Queria adicionar que as punições corporais foram adicionadas depois da revolução (islâmica, de 1979, quando o xá Reza Pahlavi foi deposto). Não é apenas o apedrejamento, mas também a crucificação e o corte das mãos. No mês passado, três ladrões tiveram as suas mãos cortadas. Um deles havia roubado uns chocolates e US$ 1.000. Isso é tão grave quanto apedrejamento. O que todos os defensores de direitos humanos deveriam fazer é repudiar todas estas leis. Sempre que nos opomos a estas leis, o governo diz que elas são religiosas. Mas isso não é correto. Clérigos respeitáveis no Irã disseram que estas leis poderiam ser revertidas. Eles (o governo) querem administrar o país como 1.400 anos atrás.

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O jornalista Gustavo Chacra, mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia, é correspondente de “O Estado de S. Paulo” em Nova York. Já fez reportagens do Líbano, Israel, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Egito, Turquia, Omã, Emirados Árabes, Yemen e Chipre quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Participou da cobertura da Guerra de Gaza, Crise em Honduras, Crise Econômica nos EUA e na Argentina, Guerra no Líbano, Terremoto no Haiti e crescimento da Al Qaeda no Yemen. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Este blog foi vencedor do Prêmio Estado de Jornalismo em 2009, empatado com o blogueiro Ariel Palacios

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