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De Nova York a Teerã – Em papo com o blog, Nobel da Paz do Irã questiona ajuda ao Hezbollah (Parte 2)

gustavochacra

16 de novembro de 2010 | 01h15

Agora publico a segunda parte da entrevista com iraniana Shrin Ebadi, Nobel da Paz de 2003. Para ela, não há problema em o Irã ajudar os libaneses. Segundo o Hezbollah, o regime de Teerã contribuiu com mais de US$ 450 milhões para reconstruir as vilas destruídas em bombardeios israelenses na guerra de 2006. O problema, diz Ebadi, é que até hoje o governo iraniano não reergueu a cidade de Ban, arrasada em um terremoto seis anos atrás

Estado – As sanções contra o Irã são focadas na questão nuclear, não nos direitos humanos. Se o regime de Teerã abdicasse de seu programa nuclear, sua situação se normalizaria, ficando como a Arábia Saudita, que também desrespeita os direitos humanos mas não sofre com punições. A sra. acha que o foco das sanções deveria mudar?

Ebadi – Nos últimos anos, sempre que falam do Irã, as pessoas pensam apenas na questão nuclear. Elas se esquecem de pessoas sendo mortas e aprisionadas. Eu costumo dizer aos países ocidentais e também ao Brasil que tudo bem falar da questão nuclear. Mas também abordem a falta de democracia e os direitos humanos. Fiquei surpresa que um homem respeitável como o Lula tenha ido ao Irã, falado da questão nuclear, e partido.

Estado – O Irã, que enfrenta uma crise econômica, gasta centenas de milhões com grupos estrangeiros como o Hamas (palestino) e o Hezbollah (libanês). No mês passado, Ahmadinejad foi recebido como herói no sul do Líbano por ter ajudado na reconstrução de vilas destruídas na guerra contra Israel (2006). A população iraniana não reclama destes gastos no exterior enquanto enfrentam dificuldades no próprio país?

Ebadi – Ahmadinejad foi ao Líbano por ter sido convidado pelo Hezbollah. E o xeque Hassan Nasrallah disse que o Irã ajudou os libaneses com US$ 450 milhões e agradeceu ao líder iraniano por contribuir com a reconstrução. A população iraniana considera os libaneses amigos e estão felizes em ajudar. Mas eles se perguntam sobre qual é a diferença entre a gente e o Hezbollah no Líbano. Seis anos atrás, a cidade de Ban, no Irã, foi atingida por um terremoto e totalmente destruída. Mas o governo iraniano não a reconstruiu. Preferiu reerguer as casas no sul do Líbano. Ban permanece em ruínas.

O Irã também deu dinheiro para o presidente do Afeganistão, Hamid Karzai. O governo iraniano negou a ajuda inicialmente, mas acabou desmentido. O próprio  líder afegão confirmou e agradeceu a Teerã. Esta ajuda financeira ocorre depois de o Irã registrar o pior crescimento econômico de todo o Oriente Médio. O crescimento foi de 1,6% no ano passado. Pior até mesmo do que o Iraque e o Afeganistão.

Estado – Com Mir Hussein Mousavi ou Mehdi Karroubi (candidatos opositores nas eleições presidenciais) as coisas seriam melhores realmente? Eles não faziam parte do regime?

Ebadi – O movimento democrático não é baseado em ideologia. É apenas democrático. Mossawi e Karroubi não são os líderes, mas integram o movimento. E as decisões são tomadas em grupo. Todos, em comum, se opõem ao governo e defendem a democracia.

Estado – O que ocorreria se Israel ou os EUA bombardeasse o Irã?

Ebadi – Nem Israel bombardeará o Irã, nem o Irã bombardeará Israel. Os israelenses não tem o poder de atacar o Irã e o governo iraniano sabe disso. E o Irã sabe que se atacar Israel as conseqüências seriam muito grave. Os EUA tampouco atacarão o Irã. Ele já tem muitos problemas no Iraque e no Afeganistão. Mas quero deixar claro que sou contra um ataque ao Irã porque deterioraria ainda mais a luta pela democracia e os direitos humanos. O governo iraniano sempre usa estas ameaças de ataque para despertar sentimentos patrióticos, desviando a atenção das pessoas para questões nacionalistas.

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O jornalista Gustavo Chacra, mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia, é correspondente de “O Estado de S. Paulo” em Nova York. Já fez reportagens do Líbano, Israel, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Egito, Turquia, Omã, Emirados Árabes, Yemen e Chipre quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Participou da cobertura da Guerra de Gaza, Crise em Honduras, Crise Econômica nos EUA e na Argentina, Guerra no Líbano, Terremoto no Haiti e crescimento da Al Qaeda no Yemen. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Este blog foi vencedor do Prêmio Estado de Jornalismo em 2009, empatado com o blogueiro Ariel Palacios

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