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De Nova York a Trípoli – De mulheres a esportes, entenda a ideologia de Kadafi

gustavochacra

27 de fevereiro de 2011 | 01h12

No Twitter @gugachacra

Quando assumiu o poder aos 27 anos, em 1969, Muamar Kadafi ainda idolatrava o arabismo do egípcio Gamal Abdel Nasser, que influenciou toda uma geração de líderes árabes. Mas, no início dos anos 1970, o pensamento arabista perdia força diante das derrotas do Egito e seus aliados em guerras contra Israel.

Sem ser religioso, comunista ou adepto do capitalismo, Kadafi decidiu inovar e criar a sua própria ideologia, que mistura um pouco de islamismo, socialismo e tribalismo. Ele a delineou no pequeno “Livro Verde”, que é uma leitura obrigatória para toda a população líbia e está disponível em inglês e até mesmo português na internet.

Nesta obra, publicada em 1975, o líder líbio criou regras econômicas, políticas e de condutas sociais para uma sociedade idealizada onde ele buscava superar todos os problemas, na sua visão, da democracia, da economia e da sociedade mundial. Fala do papel da mulher a atividades esportivas, passando por métodos educacionais e instrumentos financeiros. Seu objetivo, nestas mais de quatro décadas no poder, foi implementar estes seus ideais na Líbia.

A primeira parte do livro, que pode ser lido facilmente em menos de uma hora, trata de questões políticas. Na avaliação de Kadafi, o Parlamento, partidos e mesmo a classe política não são democráticos. “O Parlamento é uma representação errada do povo. Os sistemas parlamentares são uma falsa solução para o problema da democracia”, escreveu o líder líbio, que tinha 33 anos na época em que colocou no papel seus pensamentos.

Para Kadafi, os partidos políticos são “uma forma contemporânea de ditadura”. Nem mesmo os plebiscitos contam com o apoio dele. São uma fraude contra a democracia. Aqueles que dizem ‘sim’ ou ‘não’, na realidade, não estão expressando as sua vontade livremente porque não podem dizer mais do que ‘sim’ e ‘não’”, escreveu.

A única forma de obter uma democracia real são as conferências populares, segundo Kadafi, já que a democracia direta seria inviável por ser “impossível reunir todas as pessoas em um só local”. Como em um anúncio publicitário, o líder líbio afirma que o “Livro Verde guia a massa para um sistema prático de democracia direta sem precedentes”. Sempre citando a “Terceira Teoria Universal”, Kadafi explica o método que basicamente consistiria em assembléias populares que escolheriam seus representantes em um sistema não muito diferente do parlamentar que ele tanto critica.

Sua teoria econômica condena tanto marxistas como capitalistas e busca uma terceira via, como é comum ao longo do livro. Para começar, ele é contra o pagamento de salário e diz que cada pessoa é proprietária do que produz. “Assalariados são escravos dos patrões que os contratam, independentemente de estes serem indivíduos ou o Estado”, diz.

Kadafi também rejeita que as pessoas possuam mais de uma casa ou que estas pertençam ao Estado. De acordo com o líder líbio, “a habitação é uma necessidade fundamental para o indivíduo e a família e não deve estar nas mãos de outros. Viver na casa de outra pessoa, pagando aluguel ou não, compromete a liberdade”. Já as terras são de todos que trabalham nela.

Os transportes públicos, em teoria, não existem para o homem que manda na Líbia há 41 anos. “Os transportes são uma necessidade tanto do indivíduo quanto da família e não devem pertencer a outros”, diz, sem se aprofundar. Kadafi também afirma no livro que “empregados domésticos, sejam eles assalariados ou não, são os escravos da idade moderna”.

A terceira parte do livro é uma das mais divertidas. Depois de dissertar sobre o que é o Estado, Kadafi fala do papel da mulher. “Segundo ginecologistas, a mulher fica menstruada uma vez por mês mais ou menos, enquanto o homem, sendo um macho, não menstrua ou sofre durante o período”, diz. Por este motivo, a mulher deve cumprir a função de mãe, e não trabalhar como os homens, argumenta o líder líbio, que oficialmente não é chefe de Estado, mas apenas o “líder fraternal e guia da revolução”.

Depois de dizer que “a educação, ou aprendizado, não é necessariamente um currículo padronizado com matérias determinados em livros didáticos que os jovens são obrigados a aprender em horas específicas do dia enquanto se sentam em suas cadeiras”, Kadafi defende que o esporte seja apenas uma atividade individual. “Praticar esportes é como rezar, comer e os sentidos de frio e calor. É improvável que multidões entrem em um restaurante apenas para ver uma pessoa ou um grupo comer”, afirma, acrescentando que o mesmo se aplica a atividades esportivas.

Ele também fala das diferenças raciais. “O atraso dos negros trabalhará a favor deles para obter uma superioridade numérica porque o padrão de vida mais baixo os impede de ter métodos contraceptivos ou planejamento familiar”, disse.

Apesar de ser o próprio autor destas teorias e ter tido 40 anos para implementá-las, Kadafi continua sendo visto como um ditador sem diferenças para os seus vizinhos – isso quando a comparação não é negativa. Seu Congresso do Povo nada mais é do que um Parlamento com o agravante de não ter sido escolhido em eleições. Seus aliados e familiares comandam a economia baseada no petróleo com benefícios próprios. E os líbios são assalariados. Para finalizar, Kadafi construiu estádios em Trípoli para seu filho jogar e dirigir equipes de futebol para uma platéia que, desrespeitando o Livro Verde, comparece apenas para assistir.

Obs. Texto baseado em reportagem minha edição impressa do Estadão de domingo

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O jornalista Gustavo Chacra, mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia, é correspondente de “O Estado de S. Paulo” em Nova York. Já fez reportagens do Líbano, Israel, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Egito, Turquia, Omã, Emirados Árabes, Yemen e Chipre quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Participou da cobertura da Guerra de Gaza, Crise em Honduras, Crise Econômica nos EUA e na Argentina, Guerra no Líbano, Terremoto no Haiti e crescimento da Al Qaeda no Yemen. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Este blog foi vencedor do Prêmio Estado de Jornalismo em 2009, empatado com o blogueiro Ariel Palacios

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