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De NY a Abu Dhabi – Mercenários e traficantes de armas são os vencedores da Primavera Árabe

gustavochacra

09 de junho de 2011 | 10h23

no twitter @gugachacra

Os principais beneficiados com os levantes árabes até a agora são as empresas especializadas em segurança privada, ou, melhor dizendo, os mercenários do século 21. São eles que embolsaram bilhões dos impostos de americanos nas guerras do Iraque e do Afeganistão. Assinam contratos milionários e enganam moradores de países pobres como o Fiji, Nepal e Filipinas, pagando salários quase de escravos para que trabalhem nas bases americanas em Bagdá, Mossul, Cabul ou qualquer outra cidade perdida em um destes países, como revelou a revista New Yorker.

Estas empresas também constroem Exércitos para países com população nativa pequena. A XE, antiga Blackwater, está montando as Forças Armadas dos Emirados Árabes. Os comandantes são ex-oficiais americanos que treinam colombianos para defenderem as monarquias de Abu Dhabi e Dubai. A Arábia Saudita, Qatar, Bahrain e Omã também usam estes serviços com medo de levantes em seus territórios. Dá para confiar mais nestes mercenários do que no Exército, como eles aprenderam com Hosni Mubarak.

Para estas empresas de segurança, quanto mais conflitos, melhor para eles. A Líbia, o Iêmen e a Síria não são vistos como crises, mas como mercados em potencial. Os Estados Unidos possuem hoje mais “contractors”, como são chamados os funcionários destas empresas, do que militares no Iraque. Eles atuam não apenas nas forças de segurança, mas também nas cantinas, em construção, nas lavanderias e em quase todas as atividades americanas nestes países. O número de vítimas entre os trabalhadores destas organizações é superior ao de militares americanos. Os feridos, para complicar, não têm benefícios como os veteranos dos EUA.

Além dos mercenários, há também os traficantes de armas. Note que não são as mesmas empresas ou organizações atuando nos dois casos. Os que vendem arsenais são criminosos, enquanto os outros apenas encontraram um nicho de mercado que os permite, por incrível que pareça, usar trabalho praticamente escravo.

Os traficantes de armas atuam em todas as regiões em conflito no mundo. Como explicar que no Iêmen, uma das nações mais pobres do mundo, quase toda a população está armada? A guerra na Líbia tem sido o grande negocio do ano para estes traficantes, que estão se deliciando com o cenário na Síria. Mesmo o Egito, com a crescente criminalidade, está em alta.

Estes traficantes não ligam para a ideologia de quem está do outro lado. Vendem armas para facções inimigas entre si. Até melhor. Eles precisarão ficar se combatendo por mais tempo. Estes grupos criminosos podem ficar alimentando conflitos por anos, como o Líbano da Guerra Civil ou o Iraque de hoje. É uma espiral de violência. Quando necessário, podem até sabotar.

Muitos casos que algumas pessoas atribuem ao Mossad, CIA ou aos Mukhabarat dos países árabes podem ter sido arquitetados por estas facções que querem ver tensão. Ou, em alguns episódios, apenas acerto de contas. Lembram da morte do membro do Hamas em Dubai? Vocês acham mesmo que a Mossad deixaria tantas pistas e colocaria em risco seus integrantes? E quem teria matado Imad Mughniyeh, comandante militar do Hezbollah, em Damasco?

Para completar, muitos dos regimes da região são mafiosos e baseados em ligações com tribos em troca de favores. Muitos destes ocorrem através de armamentos comprados destas organizações criminosos. Embargos, como o imposto aos sírios, são outro grande paraíso para os traficantes porque podem vender armas diretamente para países. Muitas são compradas ou contrabandeadas de outras nações, como a Coréia do Norte, o Paquistão, a Rússia, o Irã e a China.

O Hezbollah, através de traficantes, com a ajuda de Estados nacionais, conseguiu construir a mais poderosa milícia de todos os tempos.

Obs. Vou ao Conselho de Segurança hoje acompanhar as negociações sobre a resolução contra o regime sírio e também participarei de entrevista coletiva do ministro das Relações Exteriores, Antonio Patriota. Vocês podem me acompanhar no twitter @gugachacra

Leiam os blogs da Adriana Carranca, no Afeganistão, do Ariel Palacios, em Buenos Aires, do historiador de política internacional Marcos Guterman, em São Paulo, daClaudia Trevisan, em Pequim, o Radar Global, o blog da editoria de Internacional do portal estadão.com.br, com o comando do Gabriel Toueg e do João Coscelli, o Nuestra America, do Luiz Raatz, sobre América Latina, ” e as Cartas de Washington, da correspondente Denise Chrispim

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O jornalista Gustavo Chacra, mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia, é correspondente de “O Estado de S. Paulo” em Nova York. Já fez reportagens do Líbano, Israel, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Egito, Turquia, Omã, Emirados Árabes, Yemen e Chipre quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Participou da cobertura da Guerra de Gaza, Crise em Honduras, Crise Econômica nos EUA e na Argentina, Guerra no Líbano, Terremoto no Haiti e crescimento da Al Qaeda no Yemen. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Este blog foi vencedor do Prêmio Estado de Jornalismo em 2009, empatado com o blogueiro Ariel Palacios

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