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De NY a Antióquia – Síria é hipócrita com o mundo e o mundo é hipócrita com a Síria

gustavochacra

15 de junho de 2011 | 11h16

no twitter @gugachacra

A onda de refugiados sírios para a Turquia demonstra a hipocrisia síria em relação ao mundo e do mundo em relação à Síria. No primeiro caso, o regime de Damasco desenvolveu a sua base ideológica através do conflito contra Israel para recuperar as colinas do Golã, ocupadas na Guerra dos Seis Dias, em 1967, e anexadas em ato não reconhecido pela ONU. Mas, de forma hipócrita, fecha os olhos para a sua disputa territorial com a Turquia.

Apesar de ser uma região com uma população árabe-síria maior do que a do Golã e de ter uma área bem mais ampla, a Síria não luta pela recuperação de Alexandretta, onde está Antioquia e destino de alguns dos milhares de refugiados sírios que fogem da repressão de Assad. Muitos nem sabem desta disputa territorial entre sírios e turcos.

A história recente deste esquecido conflito começou depois do fim do Império Otomano. Com a derrota na Grande Guerra, Alexandretta (ou Antioquia) passou para as mãos do mandato francês, ficando sob a jurisdição de Aleppo, que era a capital de uma da divisões administrativas francesas no Levante.  Quando os sírios começaram a lutar para ficar independentes em 1936, Ataturk, líder da Turquia, passou a temer pelo destino dos habitantes turcos deste território, que era habitado por uma maioria árabe de origem cristã ortodoxa, muçulmana sunita e alauíta, além de uma minoria armênia cristã e curda sunita.

Dois anos mais tarde, a Turquia realizou uma limpeza étnica, expulsando grande parte dos árabes, armênios e curdos da área, e enviando turcos para colonizar, em um ato similar ao realizado no Chipre décadas mais tarde. Para os cristãos árabes, foi mais grave, pois a Igreja Ortodoxa Antioquina está baseada nesta região, denominada atualmente Província de Hatay.

Até hoje, muitos mapas em Aleppo e Damasco exibem Antioquia como território sírio. Uma reivindicação justa, mas que não impediu a Síria de ter paz com a Turquia. Façam a comparação com a questão do Golã.

Ao mesmo tempo, o mundo condena com razão a repressão de Assad contra cidades do norte sírio que já deixaram milhares de refugiados. Mas hipocrisia tem limite. A ação dos Estados Unidos no Iraque provocou uma onda de 2 milhões de refugiados para a Síria. O regime de Assad, com todos os seus defeitos, abrigou mais do que o dobro de iraquianos do que todo o resto do mundo somado. Sem jamais ter recebido ajuda externa, oferece saúde e educação para os habitantes do país vizinho. Os americanos e seus aliados sauditas, com todo o dinheiro que possuem, não deram asilo a nem 1% deste total.

Leiam os blogs da Adriana Carranca, no Afeganistão, do Ariel Palacios, em Buenos Aires, do historiador de política internacional Marcos Guterman, em São Paulo, daClaudia Trevisan, em Pequim, o Radar Global, o blog da editoria de Internacional do portal estadão.com.br, com o comando do Gabriel Toueg e do João Coscelli, o Nuestra America, do Luiz Raatz, sobre América Latina, ” e as Cartas de Washington, da correspondente Denise Chrispim

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O jornalista Gustavo Chacra, mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia, é correspondente de “O Estado de S. Paulo” em Nova York. Já fez reportagens do Líbano, Israel, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Egito, Turquia, Omã, Emirados Árabes, Yemen e Chipre quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Participou da cobertura da Guerra de Gaza, Crise em Honduras, Crise Econômica nos EUA e na Argentina, Guerra no Líbano, Terremoto no Haiti e crescimento da Al Qaeda no Yemen. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Este blog foi vencedor do Prêmio Estado de Jornalismo em 2009, empatado com o blogueiro Ariel Palacios

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