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De NY a Ariel – Remover assentamentos é limpeza étnica?

gustavochacra

25 de maio de 2011 | 08h43

no twitter @gugachacra

Os assentamentos de Israel na Cisjordânia não podem ser removidos. Poderia ser descrito como o equivalente a uma limpeza étnica e certamente implicaria em uma guerra civil. Os colonos, cerca de 300 mil (ou mais de 600 mil se levarmos em conta os subúrbios de Jerusalém) devem ter o direito de morar onde estão. Faz décadas que este movimento de construção de colônias começou e seus moradores, em sua maioria, não podem ser classificados como culpados. Ali estabeleceram suas casas porque o Estado do qual são cidadãos considera estas construções legais e até mesmo as incentiva. Foi um erro do passado, mas que não deve ser resolvido com um outro erro.

O ideal, em um acordo de paz, seria a maior parte dos assentamentos ficar do lado israelense da fronteira. Basicamente, os blocos próximos à linha verde seriam anexados por Israel. Em troca, os palestinos teriam terras de boa qualidade em outras áreas que, inclusive, possam aproximar a Cisjordânia da Faixa de Gaza, tornando o Estado palestino mais viável. Não há motivo para querer que todas estas colônias fiquem sob a soberania palestina.

O problema se dá em assentamentos como Ariel, localizados distantes da linha verde, no coração do futuro Estado palestino. Estes, em um acordo de paz, precisariam passar para os palestinos. Isso não significa que os colonos seriam obrigados a abandonar as suas casas. De forma alguma um ser humano pode ser expulso de sua casa. Muitos palestinos foram expulsos do que hoje é Israel em 1948 e muitos judeus foram expulsos de países árabes na mesma época. Estes dois episódios foram crimes contra a humanidade. Não há sentido em isso acontecer novamente.

Estes colonos dos assentamentos que ficarem dentro da Palestina devem ter o direito à cidadania palestina. Caso optem por não ter, precisam encontrar uma fórmula como um greencard para eles poderem residir nas suas casas, mas pagando impostos para o novo governo da Palestina.

A discussão deve deixar de ser sobre o desmantelamento dos assentamentos e passar a ser sobre a soberania dos assentamentos. Exatamente como ocorre em Jerusalém Oriental. A questão não está em remover os árabes cristãos e muçulmanos que ali residem, mas sobre quem administrará esta parte da cidade. Mas este será assunto para um outro post.

Sei que muitos dirão que manter os assentamentos é aceitar um crime. Discordo, é aceitar a realidade. O mundo deveria ter feito algo nos anos 1970, 80, quando a população de colonos era menor. Agora, ficou impossível. Aconteceram mudanças desde 1967. Vale lembrar ainda que, mesmo estas linhas, seriam as do armísticio de 1949, e não da partilha de 1947. Os árabes realmente já perderam território quando comparamos as duas fronteiras. Desta vez, não aconteceria uma perda novamente, mas uma troca. A Cisjordânia teria o mesmo tamanho de agora, mas com um outro traçado. Qual o problema?

Leiam os blogs da Adriana Carranca, no Afeganistão, do Ariel Palacios, em Buenos Aires, do historiador de política internacional Marcos Guterman, em São Paulo, daClaudia Trevisan, em Pequim, o Radar Global, o blog da editoria de Internacional do portal estadão.com.br, com o comando do Gabriel Toueg e do João Coscelli, o Nuestra America, do Luiz Raatz, sobre América Latina, ” e as Cartas de Washington, da correspondente Denise Chrispim

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O jornalista Gustavo Chacra, mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia, é correspondente de “O Estado de S. Paulo” em Nova York. Já fez reportagens do Líbano, Israel, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Egito, Turquia, Omã, Emirados Árabes, Yemen e Chipre quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Participou da cobertura da Guerra de Gaza, Crise em Honduras, Crise Econômica nos EUA e na Argentina, Guerra no Líbano, Terremoto no Haiti e crescimento da Al Qaeda no Yemen. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Este blog foi vencedor do Prêmio Estado de Jornalismo em 2009, empatado com o blogueiro Ariel Palacios

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