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De NY a Bahrain – Os dois pesos e duas medidas dos EUA nos levantes árabes

gustavochacra

23 de maio de 2011 | 10h07

no twitter @gugachacra

Os Estados Unidos apoiaram a intervenção militar contra Muammar Kadafi na Líbia, defenderam a queda de Hosni Mubarak no Egito e de Ben Ali na Tunísia, demandam a saída de Abdullah Saleh no Iêmen, impõem sanções a Bashar al Assad na Síria, mas pedem apenas diálogo na repressão da monarquia Al Khalifa, com a ajuda de tropas sauditas, a dezenas de milhares de opositores a favor de reformas em Bahrain.

A falta de uma atitude mais dura dos americanos levou grupos de direitos humanos ao redor do mundo, como o Human Rights Watch, e lideranças dos levantes árabes no Oriente Médio a acusarem os Estados Unidos de adotarem dois pesos e duas medidas para os países da região, evitando críticas a aliados como Bahrain, Arábia Saudita e Jordânia.

Ao menos 30 pessoas já foram mortas em Bahrain, menor nação árabe do mundo, desde o início dos levantes em março deste ano. Centenas foram detidas e há dezenas de casos de tortura. Até mesmo pacientes em hospitais foram capturados pelas forças de segurança. Médicos e enfermeiras perderam suas licenças e pelo menos 47 deles serão julgados por suposto envolvimento com a oposição. Estudantes que postaram comentários contra o regime em redes sociais foram expulsos da universidade. A repressão conta com a ajuda de cerca de 3 mil militares sauditas que intervieram para conter as manifestações contra a monarquia Al Khalifa, no poder desde 1783, incluindo o período de cerca de 50 anos em que foi protetorado britânico até o início da década de 1970.

“A fato de a base da Quinta Frota da Marinha dos Estados Unidos estar baseada em Bahrain e a dependência americana do petróleo saudita faz a diferença” na relação de Washington com a monarquia Al Khalifa, segundo Colin Covell, que era professor do centro de estudos americanos na Universidade de Bahrein até o início dos protestos contra o regime. Devido à sua oposição à repressão, o especialista pediu demissão da cátedra e retornou para os Estados Unidos, de onde tem monitorado os acontecimentos no país.

Analistas acrescentam que nos levantes em Bahrain existe o componente sectário que assusto os americanos. A maior partes das manifestações são dominadas pela maioria xiita, enquanto o poder está nas mãos da monarquia sunita, minoritária no país. Estes xiitas recebem apoio do Irã, que já se posicionou a favor dos manifestantes. Para complicar, segundo Ayhan Kamel, da consultoria de risco político Eurasia, existe o temor de os levantes de Bahrain contaminarem outras monarquias árabes. “O Conselho de Cooperação do Golfo destinou US$ 20 bilhões em ajuda financeira e de segurança para Bahrain”, afirmou. Este número é dez vezes superior à ajuda prometida por Barack Obama para o avanço da democracia e modernização da economia no Egito, que possui uma população cem vezes maior do que esta nação no meio do Golfo Pérsico e rica em gás e petróleo.

Alexandre Rangel, diretor-executivo da Ernst&Young no Brasil, disse que a grande preocupação é de que os protestos atinjam a Arábia Saudita”, maior exportador de petróleo no mundo. A consultoria divulgou relatório na semana passada prevendo um novo choque de petróleo.

Reportagem do New York Times indicou que até os Emirados Árabes contrataram os serviços privados de segurança da Blackwater para montar um Exército de mercenários para lutar contra possíveis manifestantes entre as centenas de milhares de expatriados da Ásia Central residentes no país, com o temor de protestos parecidos com o de Bahrain. George Friedman, da Stratfor, advertiu em análise que até mesmo a retirada americana do Iraque pode ser afetada caso os levantes em Bahrain prossigam.

Covell, ex-professor da Universidade de Bahrain, acrescenta que em meio aos protestos, o secretário da Defesa dos Estados Unidos, Robert Gates, visitou Manama, capital bairenita. Quatro dias depois, em março, quando os Estados Unidos pressionavam a Síria a levantar o Estado de Emergência, o rei Hamad bin Al Khalifa decretou o estado de segurança nacional, abrindo caminho para a intensificação da repressão. Na semana passada, apesar de duras críticas de órgãos de imprensa como a BBC e o The Guardian, o premiê britânico, David Cameron, convidou o príncipe herdeiro da coroa Bahrain, Salman bin al Khalifa, para uma visita privada em Londres, sendo fotografo em clima amistoso na saída.

Nos Estados Unidos, as críticas à administração de Barack Obama se intensificaram ainda mais no início da semana passada, com um comunicado do Departamento de Estado dizendo que o subsecretário James Steinberg, em viagem a Manama, “afirmou o compromisso dos Estados Unidos com uma forte parceria tanto com o povo como com o governo de Bahrain e expressou a importância dos direitos humanos universais. Pediu ainda aos dois lados que busquem a via da reconciliação e um diálogo político”.

Apenas na quinta-feira, em meio a protestos de defensores de direitos humanos, Obama decidiu incluir Bahrain em seu discurso para o mundo árabe. “Já insistimos publica e privadamente que as prisões em massa e o uso brutal da força vão contra os direitos universais dos cidadãos de Bahrain e estas medidas não farão com que os pedidos legítimos para reforma desapareçam. A única saída é o governo e a oposição se envolverem um diálogo, mas não é possível haver um diálogo real enquanto pacifistas opositores estão na cadeia. O governo precisa criar condições para o diálogo”, disse Obama.

O problema, segundo os críticos, foi o presidente americano dizer no mesmo discurso que “Bahrain é um aliado antigo e nós estamos comprometidos com a sua segurança. Reconhecemos que o Irã tentou se aproveitar da instabilidade, mas o governo de Bahrain tem interesse no cumprimento das leis”. O contraste com a Síria foi notado, já que Obama pediu reformas imediatas para Bashar al Assad ou a saída dele do poder. Proporcionalmente ao tamanho da população da Síria (22 milhões) e de Bahrain (700 mil nativos), o total de mortos (800 na Síria e 30 em Bahrain) praticamente se equivalem.

“O discurso de Obama alimentou as acusações de inconsistência de sua administração ao longo deste ano. A Arábia Saudita ficou ausente do texto. O vizinho Bahrain foi mencionado. Embora colocado como um aliado antigo, foi fortemente aconselhado a dialogar com opositores presos”, disse Robert Danin, do Council on Foreign Relations.

Leiam os blogs da Adriana Carranca, no Afeganistão, do Ariel Palacios, em Buenos Aires, do historiador de política internacional Marcos Guterman, em São Paulo, daClaudia Trevisan, em Pequim, e o Radar Global, o blog da editoria de Internacional do portal estadão.com.br e do jornal O Estado de S.Paulo”

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O jornalista Gustavo Chacra, mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia, é correspondente de “O Estado de S. Paulo” em Nova York. Já fez reportagens do Líbano, Israel, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Egito, Turquia, Omã, Emirados Árabes, Yemen e Chipre quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Participou da cobertura da Guerra de Gaza, Crise em Honduras, Crise Econômica nos EUA e na Argentina, Guerra no Líbano, Terremoto no Haiti e crescimento da Al Qaeda no Yemen. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Este blog foi vencedor do Prêmio Estado de Jornalismo em 2009, empatado com o blogueiro Ariel Palacios

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