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De NY a Beirute – Hezbollah integra, mas NÃO lidera governo libanês

gustavochacra

13 de junho de 2011 | 19h38

no twitter @gugachacra

Olhem a composição do novo governo libanês e, por favor, não digam que será uma administração liderada pelo Hezbollah, como divulgam alguns órgão de imprensa internacionais e também do Líbano. O grupo xiita será um integrante minoritário da administração de Najib Mikati, aprovada ontem, com 30 ministros (incluindo ele)

Najib Mikati – o premiê, sunita, como manda a lei, escolheu 7 ministros, além dele

Michel Suleiman – o presidente, cristão maronita, como manda a lei, escolheu 3 ministros

Frente Patriótica e Marada (movimentos cristãos) – 10 ministros

Partido Socialista (druzo) – 3 ministros

Hezbollah (xiita) – 2 ministros

Amal (xiita) – 2 ministros

Logo, o grupo mais forte do governo é o dos cristãos ligados a Michel Aoun, seguido por Mikati, Suleiman (também cristão), Jumblatt (líder dos druzos). Apenas em último vem o Hezbollah e a Amal, com dois. Mais importante, o Hezbollah queria Omar Karami como premiê. O escolhido, há cinco meses, foi Mikati, ligado à Síria, mas não ao grupo xiita

Esta divisão segue as linhas sectárias no Líbano, onde os cristãos são favorecidos, apesar de minoritários (censos são proibidos). Logo, o Hezbollah tem bem menos peso no governo do que poderia ter se o Líbano tivesse um sistema democrático que não levasse em conta a religião. Mas o grupo xiita aceita e não reclama. Sem a aliança com os cristãos, eles perdem a legitimidade

O Hezbollah é um Estado dentro do Estado no Líbano, com milícia própria, controle de áreas no sul, no Beqa e mesmo em Beirute. Possui canal de TV, sistema de comunicação, envolvimento na segurança do aeroporto, creches e hospitais. É acusado de ter matado Rafik Hariri. Classifiquem como quiserem. Mas não é correto dizer que lideram o governo libanês

O Líbano é bem mais complicado. A política em Beirute lembra muito, mas muito mesmo, o filme O Poderoso Chefão. Inimigos de hoje, são aliados de amanhã. Michel Aoun passou 15 anos no exílio por sua oposição à Síria e ao Hezbollah. Ele próprio me disse isso em entrevista em 2004. Hoje é o melhor amigo do grupo xiita e do regime de Damasco

Naquele mesmo ano, Rafik Hariri defendeu em entrevista para mim as armas do Hezbollah e a presença síria no Líbano. Todos sabem como terminou a história, com um carro explodindo diante do Hotel São George. Hoje, seu filho é o principal rival do Hezbollah e da Síria. Além disso, se aliou a Samir Gaegea, um líder miliciano da guerra civil que o Hariri pai manteve em um calabouço por mais de uma década.

Para completar, o Hezbollah já integrou governos liderados tanto por Rafik como por Saad Hariri, Não dá para ser hipócrita. Na época, o grupo xiita tinha o mesmo discurso radical contra Israel de hoje e também era aliado do Irã e da Síria.

Leiam os blogs da Adriana Carranca, no Afeganistão, do Ariel Palacios, em Buenos Aires, do historiador de política internacional Marcos Guterman, em São Paulo, daClaudia Trevisan, em Pequim, o Radar Global, o blog da editoria de Internacional do portal estadão.com.br, com o comando do Gabriel Toueg e do João Coscelli, o Nuestra America, do Luiz Raatz, sobre América Latina, ” e as Cartas de Washington, da correspondente Denise Chrispim

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O jornalista Gustavo Chacra, mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia, é correspondente de “O Estado de S. Paulo” em Nova York. Já fez reportagens do Líbano, Israel, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Egito, Turquia, Omã, Emirados Árabes, Yemen e Chipre quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Participou da cobertura da Guerra de Gaza, Crise em Honduras, Crise Econômica nos EUA e na Argentina, Guerra no Líbano, Terremoto no Haiti e crescimento da Al Qaeda no Yemen. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Este blog foi vencedor do Prêmio Estado de Jornalismo em 2009, empatado com o blogueiro Ariel Palacios

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