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De NY a Brasília – Brasil reluta em apoiar resolução anti-Assad e irrita EUA, Inglaterra e França

gustavochacra

10 de junho de 2011 | 07h06

no twitter @gugachacra

A indicação do Brasil de que talvez não apóie a resolução contra o regime de Bashar al Assad no Conselho de Segurança das Nações Unidas tem irritado os Estados Unidos, França, Grã Bretanha e Alemanha. Diplomatas destes países disseram estar decepcionados com a atitude brasileira de não votar a favor do texto condenando o governo sírio pela repressão a opositores que já deixou mais de mil mortos.

Esta posição em relação ao Brasil me foi informada por diplomatas de países ocidentais horas depois de o ministro das Relações Exteriores, Antonio Patriota, ter afirmado em entrevista na ONU que “a Síria é um país central quando se leva em conta a estabilidade no Oriente Médio. A última coisa que gostaríamos é contribuir para exacerbar as tensões no que pode ser considerada uma das regiões mais tensas de todo o mundo”.

O chanceler brasileiro evitou dizer como será o voto brasileiro, dizendo que o governo “seguirá monitorando a situação antes de adotar uma posição”. Mas, para os países defensores da resolução, levando em conta as consultas na tarde de ontem, há sinais de que o Brasil não votará a favor.

Um diplomata ocidental me disse ontem que “a sensação é de incompreensão com a posição do Brasil. Conhecemos os valores democráticos dos brasileiros e esperávamos que eles se colocassem a favor da resolução. Tivemos a preocupação inclusive de não colocar no texto qualquer menção a uma intervenção externa na Síria. Pedimos apenas reformas que sejam lideradas pelos próprios sírios, libertação dos prisioneiros e o fim da violência contra os opositores. Mas parece não ter sido suficiente para convencer os brasileiros”.

A resolução proposta por Grã Bretanha, França, Alemanha e Portugal, com o apoio dos Estados Unidos, é bem mais branda do que as duas aprovadas contra o regime de Muamar Kadafi, na Líbia. Na primeira delas, impondo sanções ao líder líbio, o Brasil votou a favor. Na segunda, que estabeleceu uma zona de exclusão aérea, os brasileiros se abstiveram, junto com China, Índia, Rússia e Alemanha.

A posição brasileira é avaliada como fundamental dentro do Conselho de Segurança das Nações Unidas por ser uma potência emergente e democrática. Além dos brasileiros, a China, a Rússia e o Líbano já se manifestaram contra a resolução. A Índia também tende a seguir o caminho dos outros três membros dos BRICS. A posição da África do Sul ainda é incerta.

Mesmo sem o apoio destes seis países, a resolução, ainda sem data para ser votada, poderia ser aprovada com os nove votos a favor, que é o mínimo necessário. O risco seria a Rússia e a China usarem o poder de veto para impedir a implementação do texto. Os dois países são parceiros comerciais de Damasco e os russos mantêm relações políticas próximas com o regime dos Assad há décadas. O porto de Latakia, na costa síria, é o principal entreposto de Moscou no Mediterrâneo.

Além disso, a Rússia e a China dizem nos bastidores que os EUA precisam aprender que outros países possuem interesses geopolíticos, como os próprios americanos que sempre vetam resoluções contrárias a Israel.

Voltando ao Brasil, de acordo com Patriota, é importante prestar atenção em como têm atuado os países do mundo árabe, em especial o Líbano, que também é vizinho da Síria. Estes países não defendem a imposição de sanções ao governo sírio e tampouco a adoção de uma resolução. A posição contrasta com a adotada no caso de Muamar Kadafi. Na época, a Liga Árabe se posicionou abertamente contra o regime líbio.

“A perspectiva deles (dos árabes) é fundamental. A ação na Líbia envolveu um pedido da Liga Árabe. Desta vez, a mensagem é menos clara”, disse o ministro. Segundo Patriota, a “posição brasileira será independente (de outros países), mas levará em conta a forma como os países da região lidam com a questão”.

Há uma contradição nesta posição do ministro brasileiro. No caso líbio, o Brasil se absteve apesar de o Líbano ter sido o maior defensor do estabelecimento da zona de exclusão aérea. Isto é, estivemos do lado oposto de Beirute e da Liga Árabe. Agora, todos sabem ser impossível o Líbano apoiar uma resolução condenando a Síria porque, basicamente, haveria risco de guerra civil. “Nós entendemos a posição libanesa”, me disse um diplomata ocidental do CS da ONU.

Para completar, o chanceler brasileiro condenou a violência e as notícias de tortura na Síria. Mas disse que o Itamaraty “está em contato com o governo sírio e recebemos sinais de que querem implementar reformas políticas”.  Durante a administração de Luiz Inácio Lula da Silva, o Brasil se aproximou da Síria. No ano passado, Bashar al Assad realizou visita oficial a São Paulo e Brasília.

Leiam os blogs da Adriana Carranca, no Afeganistão, do Ariel Palacios, em Buenos Aires, do historiador de política internacional Marcos Guterman, em São Paulo, daClaudia Trevisan, em Pequim, o Radar Global, o blog da editoria de Internacional do portal estadão.com.br, com o comando do Gabriel Toueg e do João Coscelli, o Nuestra America, do Luiz Raatz, sobre América Latina, ” e as Cartas de Washington, da correspondente Denise Chrispim

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O jornalista Gustavo Chacra, mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia, é correspondente de “O Estado de S. Paulo” em Nova York. Já fez reportagens do Líbano, Israel, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Egito, Turquia, Omã, Emirados Árabes, Yemen e Chipre quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Participou da cobertura da Guerra de Gaza, Crise em Honduras, Crise Econômica nos EUA e na Argentina, Guerra no Líbano, Terremoto no Haiti e crescimento da Al Qaeda no Yemen. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Este blog foi vencedor do Prêmio Estado de Jornalismo em 2009, empatado com o blogueiro Ariel Palacios

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