As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

De NY a Damasco – Apesar de condenar violência, Patriota diz ao blog que vê avanços na Síria

gustavochacra

14 de julho de 2011 | 09h44

no twitter @gugachacra

Apesar de ressaltar a gravidade da repressão do regime de Bashar al Assad contra os opositores, o ministro das Relações Exteriores do Brasil, Antonio Patriota, vê alguns avanços na Síria, considerando o cenário distinto do existente na Líbia.

A declaração do chanceler brasileiro foi dada para mim ontem aqui em Nova York, um dia depois de os Estados Unidos afirmarem que Assad perdeu a legitimidade e de o Conselho de Segurança da ONU ter aprovado declaração condenado os ataques de partidários do regime às representações diplomáticas americana e francesa em Damasco.

“Apesar da violência de escala inaceitável, não condizente com um Estado moderno, democrático e pluralista, como o Brasil já deixou claro diversas vezes, o governo sírio tem demonstrado disposição em promover um diálogo nacional, rever leis eleitorais, soltar presos políticos e avançar em algumas reformas”, disse o chanceler em entrevista na saída Conselho de Segurança da ONU, onde ele havia participado de reunião sobre o Sudão.

Segundo Patriota, o caso sírio se difere do líbio em dois pontos. Primeiro, “não há um consenso no mundo árabe”, como ocorreu no caso da Líbia, quando a Liga Árabe apoiou a resolução contra Muamar Kadafi. Em segundo lugar, há uma polarização “entre os que defendem uma resolução e os que preferem trabalhar bilateralmente”.

“O Brasil, a Índia e a África do Sul têm tentado aproximar estas posições”, disse o ministro. O chanceler defende que o “CS se pronuncie de forma consensual através de uma resolução ou de uma declaração presidencial”. “Mas a verdade é que a dificuldade está no seio dos próprios membros permanentes”, acrescentou.

No mês passado, a França e os EUA tentaram aprovar uma resolução condenando a Síria no CS. Apesar de o texto proposto não prever sanções, China, Rússia, Índia, Brasil e África do Sul não demonstraram apoio. Temendo que Pequim e Moscou vetassem a proposta, Paris e Washington decidiram retirá-la antes de ser colocada para votação.

A Rússia utiliza o porto sírio de Latakia como entreposto comercial no Mediterrâneo e os chineses possuem importantes relações comerciais com a Síria. Já os brasileiros dizem preferir uma saída negociada para a crise síria. Estes países também não apoiaram a resolução que estabeleceu a zona de exclusão aérea na Líbia.

Patriota também celebrou o estudo publicado nesta semana pelo Council on Foreign Relations (CFR), um dos mais importantes centros de política externa do mundo, defendendo que os Estados Unidos tratem o Brasil como uma potência global, e não apenas regional.

“Este relatório é um reconhecimento do papel crescente que o Brasil vem desempenhando no cenário internacional e presta uma contribuição construtiva para as relações do país com os EUA”, disse.

O estudo, realizado por uma força tarefa de 30 especialistas de diferentes áreas e correntes políticas, defende que os EUA apóiem a candidatura do Brasil a uma vaga de membro permanente do CS da ONU, eliminem a obrigatoriedade dos vistos para brasileiros entrarem no território americano e suspendam a tarifa ao etanol, entre outras medidas que tratem o Brasil como um ator global.

Na avaliação de Patriota, a posição dos autores coincide com a do governo brasileiro. “Queremos desenvolver uma parceria crescente em áreas estratégicas, com uma relação de cooperação, e não de competição”, disse o ministro, que foi embaixador do Brasil em Washington no passado.

Comentários islamofóbicos, anti-semitas e anti-árabes ou que coloquem um povo ou uma religião como superiores não serão publicados. Tampouco ataques entre leitores ou contra o blogueiro. Pessoas que insistirem em ataques pessoais não terão mais seus comentários publicados. Não é permitido postar vídeo. Todos os posts devem ter relação com algum dos temas acima. O blog está aberto a discussões educadas e com pontos de vista diferentes. Os comentários dos leitores não refletem a opinião do jornalista

O jornalista Gustavo Chacra, mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia, é correspondente de “O Estado de S. Paulo” em Nova York. Já fez reportagens do Líbano, Israel, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Egito, Turquia, Omã, Emirados Árabes, Yemen e Chipre quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Participou da cobertura da Guerra de Gaza, Crise em Honduras, Crise Econômica nos EUA e na Argentina, Guerra no Líbano, Terremoto no Haiti e crescimento da Al Qaeda no Yemen. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Este blog foi vencedor do Prêmio Estado de Jornalismo, empatado com o blogueiro Ariel Palacios

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.