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De NY a Damasco – Como Pinochet no Chile, Assad também tem apoio da população

gustavochacra

21 de junho de 2011 | 10h32

no twitter @gugachacra

Durante as ditaduras militares na Argentina, no Chile e no Brasil, grande parte da população apoiava estes regimes. No fim dos anos 1970, possivelmente, Augusto Pinochet era o homem mais popular em Santiago. Assim como os seus pares argentinos Leopoldo Galtieri e Jorge Rafael Videla, o ditador chileno possuía milhares de mortos e torturados no seu currículo. O general Emílio Médici também era idolatrado por muitos em seu Brasil do Milagre Econômico, apesar de liderar um regime responsável por centenas de desaparecidos.

Com Bashar al Assad não é diferente. Seu regime, apenas nos levantes deste ano, já matou cerca de 1.500 pessoas, torturou centenas e prendeu dezenas de milhares. Ainda assim, enorme parcela da população síria defende não apenas o líder sírio, como também a repressão. São como milhões de brasileiros, argentinos e chilenos que temiam o comunismo nos anos 1970. Afinal, nem todos que lutavam contra a ditadura queriam a democracia. As motivações variavam, incluindo alguns que queriam instalar um regime nos moldes cubanos nestes países. Na avaliação deles, antes um Médici, um Videla, um Pinochet a um Fidel Castro.

Os sírios de Damasco e Aleppo, em sua maioria, também vêem o cenário entre o sanguinário, mas secular, Bashar al Assad e opositores que, na visão deles, não querem democracia, mas a instalação de um regime radical religioso. No Oriente Médio, o medo não é de comunista, mas de islamitas radicais. Note que, como no Brasil, no Chile e na Argentina de décadas atrás, muitos deles acreditam no que o governo fala e acham que estes protestos se tratam de levantes organizados por sabotadores estrangeiros. Sem Assad, pensam eles, o resultado será uma guerra civil.

Hoje, dezenas de milhares saíram às ruas para apoiar Assad em Damasco e Aleppo, onde não existem protestos contra o regime até hoje. Os raros são em um subúrbio da capital. Verdade, no interior e em bairros de Homs e Latakia, ocorrem. Mas não nas duas maiores cidades. Vários destes manifestantes pró-Assad de hoje podem ter sido forçados ou “incentivados” a participarem. Mas muitos foram porque genuinamente gostam do líder sírio, mesmo ele tendo matado centenas. Exatamente como ocorria no Chile ou na Argentina. Não adianta ignorar, pois sem entender estes pró-Assad, não dá para entender a Síria de hoje

Abaixo, leiam o relato de Joshua Landis, acadêmico que mais entende de Síria nos Estados Unidos, em entrevista ao Marcelo Ninio, correspondente da Folha em Jerusalém. Acho a melhor descrição de como está a Síria hoje.

“O apoio ao regime é definitivamente maior do que aparece na mídia ocidental, que está apaixonada pela oposição. Afinal, a Síria tem sido um regime fechado e autoritário por 50 anos, desde que o partido Baath assumiu o poder, em 1963. E a religião do Ocidente é a democracia. A narrativa descrita pela oposição é de uma luta popular por liberdade contra um ditador e a crueldade de sua família. Mas essa é apenas parte da história. Há uma outra realidade, que é a de uma sociedade profundamente dividida. As classes média e alta, os mais velhos e a maior parte das minorias vêem esse regime autoritário de forma positiva, porque ele trouxe estabilidade e evitou que o país mergulhasse numa guerra civil. O Ocidente não sabe o que é uma guerra civil ou qualquer outra guerra por tanto tempo que esqueceu os benefícios da estabilidade. E o problema é que a Síria está situada entre o Líbano e o Iraque, dois países que viveram guerras civis devastadoras.”

Leiam os blogs da Adriana Carranca, no Afeganistão, do Ariel Palacios, em Buenos Aires, do historiador de política internacional Marcos Guterman, em São Paulo, daClaudia Trevisan, em Pequim, o Radar Global, o blog da editoria de Internacional do portal estadão.com.br, com o comando do Gabriel Toueg e do João Coscelli, o Nuestra America, do Luiz Raatz, sobre América Latina, ” e as Cartas de Washington, da correspondente Denise Chrispim

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O jornalista Gustavo Chacra, mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia, é correspondente de “O Estado de S. Paulo” em Nova York. Já fez reportagens do Líbano, Israel, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Egito, Turquia, Omã, Emirados Árabes, Yemen e Chipre quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Participou da cobertura da Guerra de Gaza, Crise em Honduras, Crise Econômica nos EUA e na Argentina, Guerra no Líbano, Terremoto no Haiti e crescimento da Al Qaeda no Yemen. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Este blog foi vencedor do Prêmio Estado de Jornalismo em 2009, empatado com o blogueiro Ariel Palacios

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