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De NY a Damasco – Como pode acabar o regime de Assad

gustavochacra

08 de junho de 2011 | 10h02

no twitter @gugachacra

Bashar al Assad não será deposto pelas atuais manifestações de opositores. Elas ainda são insuficientes para afetar seu poder. Porém o líder sírio corre risco de ser derrubado por alguns dos pilares de sustentação de seu regime – a elite e a classe média sunita de Damasco e Aleppo, as minorias cristãs e alauítas e integrantes das Forças Armadas.

Até agora, estes três suportes se mostraram a favor da repressão porque temem as conseqüências do fim do regime e por este motivo apóiam Assad. O maior temor seria a transformação da Síria em um Iraque pós-Saddam , com guerra civil generalizada e perseguição a minorias religiosas, deterioração da economia e aumento do conservadorismo religioso.

A comunidade internacional, apesar de condenar Assad, teme a sua queda pelos mesmos argumentos e, também, pelo risco de instabilidade em uma área onde há outros focos de tensão em Israel, Líbano e Iraque. Notem que, até agora, não aprovaram uma resolução contra o regime sírio no Conselho de Segurança da ONU. Apesar de a violência na Síria ser incomparavelmente maior do que no Egito e na Tunísia, nenhum líder ocidental disse claramente querer a queda de Assad, como fizeram com Hosni Mubarak e Ben Ali. Isso levando em conta que o egípcio e o tunisiano eram aliados e o sírio, no caso americano, um inimigo.

O problema, para Assad, é que o prolongamento da crise ameaça a economia da mesma forma que a sua queda. Além disso, a sua repressão, com mais de mil mortes, já praticamente leva o país para uma guerra civil. No fim de semana, ele provocou instabilidade na fronteira com Israel.

Um dos grupos de apoio, as Forças Armadas, já vê defecções, ainda que em número considerado baixo. Este processo, porém, pode se acentuar em poucas semanas. Os soldados não se sentem à vontade ao matarem jovens como eles que estão desarmados. Eles aos poucos notam que são enganados pelo regime. Poderemos ver rupturas em número elevado, como na Líbia, em breve. A elite e a classe média nas duas grandes cidades do país começam a ficar insatisfeitas. Assad talvez não seja mais a garantia de nada. Apenas os alauítas e os cristãos seguem firmes com o regime pois, para eles, esta seria a única salvação.

Mas estes dois grupos religiosos são insuficientes para manter Assad no poder. Se começarem protestos em larga escala em Damasco e Aleppo e/ou os militares começarem a desertar, o regime sírio poderá cair ou veremos uma guerra civil nos moldes da Líbia, com Assad deixando de controlar algumas partes do país. Neste caso, a pressão internacional sobre o líder sírio aumentará e eles tentarão descobrir alguém na oposição que possa assumir o poder.

Assad, neste caso, recorrerá ao Hezbollah. Os dois não se gostam tanto, mas um precisa do outro. A organização libanesa sabe que se enfraqueceria sem o apoio de Damasco. Agora, seria a hora do pagamento. Com o Hezbollah, considerado a mais preparada milícia do mundo, Assad teria a seu favor um Exército de mercenários infinitamente superior do que o de Kadafi, na Líbia. E a Síria, depois de anos olhando os vizinhos libaneses e iraquianos se matarem – e matando também muitos deles – viverá seus dias de guerra.

Leiam os blogs da Adriana Carranca, no Afeganistão, do Ariel Palacios, em Buenos Aires, do historiador de política internacional Marcos Guterman, em São Paulo, daClaudia Trevisan, em Pequim, o Radar Global, o blog da editoria de Internacional do portal estadão.com.br, com o comando do Gabriel Toueg e do João Coscelli, o Nuestra America, do Luiz Raatz, sobre América Latina, ” e as Cartas de Washington, da correspondente Denise Chrispim

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O jornalista Gustavo Chacra, mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia, é correspondente de “O Estado de S. Paulo” em Nova York. Já fez reportagens do Líbano, Israel, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Egito, Turquia, Omã, Emirados Árabes, Yemen e Chipre quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Participou da cobertura da Guerra de Gaza, Crise em Honduras, Crise Econômica nos EUA e na Argentina, Guerra no Líbano, Terremoto no Haiti e crescimento da Al Qaeda no Yemen. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Este blog foi vencedor do Prêmio Estado de Jornalismo em 2009, empatado com o blogueiro Ariel Palacios

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